Quando meu amor foi interrompido forçadamente em 21 de junho de 2009, eu já sabia que são poucas as pessoas no mundo que entendem a diferença entre "sentir amor por um animal" e "sentir amor". Não me sinto mal de falar que eu era apaixonado por aquela cachorrinha, não tenho medo de ser mal interpretado. A maioria das pessoas que não sentem como eu, algum dia de suas vidas morreram por dentro e agora são incapazes de entender isso. Sinto pena delas. Não sabem o que estão perdendo.
Desde aquela época eu sabia que não teria com quem falar a respeito, e as únicas pessoas que poderiam me ajudar estavam tão abaladas quanto eu. Escolhi não correr o risco de acabar com o mundo de todo mundo de uma vez e me virei sozinho. Guardei pra mim toda a mágoa e a tristeza e me pus a escrever. Comecei mandando recados que só eu leria - tática que eu já conhecia bem, pois foi assim que esse blog começou, e o motivo por ele ter sido criado, e que funcionou tão bem - e quando vi já estava entendendo a dor e conseguindo domá-la. Aos poucos fui entendendo tudo o que eu estava sentindo, e aprendi a dar nome a cada sentimento. Aprendi a canalizar as lembranças e os sentimentos. Assim aprendi muito sobre a vida, sobre o que tinha acontecido, e tudo isso me aliviou muito. Eu já não sentia mais tanta tristeza, mas sim um alívio por ter sido abençoado a passar anos com ela e ter sido o escolhido por Deus pra tomar conta dela. Em contrapartida, ela me ensinou muito sobre o mundo, a vida, as pessoas, os animais, os céus. E eu só percebi isso depois de olhar pra dentro de mim e refletir sobre tudo o que estava se passando.
Ontem, o avô de alguém muito especial pra mim tomou seu lugar junto das outras estrelas. Não acredito que seja uma ironia que ele tenha ido embora justamente no dia dos pais. Acredito, sim, que Deus tenha um motivo muito bom pra ter escolhido esse dia e, assim como aconteceu comigo, a família só vai entender daqui a algum tempo, quando olharem pra dentro, a poeira abaixar e se puserem a pensar quem era este senhor e qual foi sua missão na Terra.
Eu sinceramente não tive coragem de entrar na sala onde ele estava repousado para homenagens. Não me sinto bem. Quando um amigo se foi em 2003 nem fui visitar sua última cama. Preferi orar sozinho.
Quando ela saiu de lá de dentro da sala, esse alguém especial, estava com os olhos vermelhos, mas não chorava. Quando veio até mim falava pouco e não me olhava nos olhos. Chamei-a pra ir pra fora e perguntei se ela tinha chorado. Ela se espantou e quis saber como eu sabia. Eu só falei que percebi. Ela agora vai perceber o que eu aprendi quando escrevi
"Quem tem esses traumas, quase sempre provocados por excesso de amor, consegue perceber nas outras pessoas." Eu tive esse trauma, provocado por excesso de amor, e agora consigo perceber nas outras pessoas.
Eu sempre soube que era muito bom em consolar as pessoas. Mas dessa vez foi diferente. Foi especial. Eu me senti especial. Porque por alguns minutos percebi que não era eu falando. Percebi que as palavras que eu pronunciava eram de coisas e constatações que eu não tinha antes de 2 anos atrás. Percebi que eu usava as mesmas palavras que me consolaram naqueles dias. Era ela, eu tinha certeza. Era aquela estrelinha focinhuda lá em cima que estava soprando pra mim as palavras que ela tinha me feito aprender depois de ir embora, depois de chegar no céu. Eu sabia, eu sempre soube que ela tinha se tornado um anjinho. E eu tenho certeza que ontem, sob a luz do luar mais forte do mês, sob um céu com poucas estrelas, igual o céu da noite do dia em que ela foi encontrar São Francisco, era ela lá em cima, era ela ali comigo, era ela me dando forças pra não chorar, pra não derramar lágrimas. Porque quem me ouvia estava fraca, fraca demais, e tudo que ela menos precisava era que eu, seu porto seguro, como ela me chama, desabasse em frente a ela.
Ontem eu percebi que ela não está mais comigo só
in memoriam. Mas que ela está comigo in spiritus. E esse sopro me fez forte pra consolar outra alma que estava com o coração partido da mesma força que eu estava. E eu estava ajudando a consertá-lo, com palavras sopradas por esse espírito por quem meu coração se quebrou. Mas agora já curado porque percebi tudo o que percebi nos meses que se sucederam à sua partida. E espero que assim eu tenha conseguido dar os primeiros pontos de sutura para que aquele que batia apertado encostado no meu também se consertasse logo.
Eu sempre soube que um coração machucado sabe reconhecer o outro.
Fica com São Fancisco, menininha do Buno. Bigado pela lambida.
Seo Antônio, vá em paz. Aqui tem muita gente que vai te manter vivo por essa vida e outras que virão.