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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não adianta



Não adianta dar a frente na fila de igreja e não dar passagem aos outros carros e ao pedestre no trânsito.
Não adianta.
Não adianta colocar a culpa na Igreja pela maldade dos homens.
Não adianta.
Não adianta reclamar do tratamento que o governo dá à população se você rouba seus clientes.
Não adianta.
Não adianta defender a morte dos assassinos: você se tornaria um deles.
Não adianta.
Não adianta reclamar do sistema penal se você chuta um cachorro.
Não adianta.
Não adianta reclamar da falta de emprego se você não quer trabalhar.
Não adianta.
Não adianta adiantar o relógio se você não produz nada nesse tempo.
Não adianta.
Não adianta apontar o dedo no nariz dos outros se você ainda não corrigiu todos seus defeitos.
Não adianta.
Não adianta reclamar do preço de um serviço se você não sabe executá-lo.
Não adianta.
Não adianta você querer aprender tudo isso só me lendo, se você não sentiu tudo isso na pele.
Não adianta.

terça-feira, 21 de junho de 2011

In memoriam (2 anos)




Ali onde o mato agora cresce, onde 2 anos atrás foi cavado um buraco, repousa o corpo sem vida de um ser dito "irracional" que me ensinou muito da vida.
A gente sempre se pergunta como os cachorros sabem enterrar osso, como sabem pedir comida e como sabem a hora do passeio. Os cientistas chamaram isso de instinto. Eu tenho outro nome.
Aquela cachorrinha que latia ardido pros gatos, e grosso pro carteiro, olhava pra gente pedindo carinho. Era a forma dela mostrar que queria nos dar carinho.
Sua memória fraca, e a fraqueza de suas pernas nos últimos dias, só reforçam a ideia de que a vida é muito fraca. Mas a alma e a saudade são pra sempre.
Seu corpo, agora parado, gelado, magro, em nada se assemelha à eterna criançona que corria mais do que eu. Ela sabia o caminho de casa. Era só soltar na entrada do sítio, logo depois da porteira. Ela ia correndo. As orelhas balançavam. Impossível não reconhecer Deus ali. Impossível não chamar de amor o sorriso que eu abria.
Impossível conviver 14 anos e meio com ela e não aprender o que ela quis ensinar "por instinto". Será que é por instinto que eles aprendem a amar sem talvez?
Você pode chamar do que quiser. Seu corpo pode estar agora decomposto, mas sua alma continua bem aqui comigo. E, por instinto, aprendi a amar sem talvez. E que a felicidade depende de uma memória curta.

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Nunca vamos aprender



Foto: Cle
O amor quando vem não manda recado. Vem porque vem. Vem porque tem que vir. Vem porque tem que acontecer.
E como seria bom se entendêssemos de uma vez por todas a amar como os animais, cuja única preocupação no amor é se amam ou não.
Não importa a cara, o corpo, a religião, a condição social.
Não importa o curso na faculdade, se fez faculdade, se escreve certo ou errado.
Eles não se importam se você é branco, negro, preto, amarelo, azul, et ou se você nem é alguém. Eles nos amam porque assim o sentem, porque assim o desejam.
Eles não se importam se a comida que você deu é de ontem, se a água está fresquinha. Eles lembram que você os alimentou, e por entenderem isso como um gesto de carinho. Então retribuiem este carinho.
Eles não se importam se você foi embora. Se você demorou pra voltar. Eles nem entendem por que você some às vezes. O importante pra eles não é quanto tempo se passou, mas quanto tempo ele fica com você. Por isso ficam tão felizes com a chegada, e não ficam te cobrando se demorou. Porque eles não têm tempo pra isso. Eles vivem menos. Pros cachorros, cada ano deles vale 7 nossos. Isso significa que cada  mês valem 14 meses, mais de 1 ano. Cada dia vale 1 semana. E cada voltinha de 20min significa 140min com você.
Então, aprenda a amar como um cachorro. Ele deita do seu lado em silêncio. Eles têm a memória fraca. Se recebe uma bronca agora, em 1 minuto já tá correndo atrás de você pra brincar.
Talvez seja por isso que eles vivam menos: porque eles entendem de uma vez o jeito certo de amar. Nós, os verdadeiros irracionais, precisamos de quase 100 anos pra aprender a amar. E nunca aprendemos de verdade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O dia mais feliz da minha vida



Foto: C.A.
Não foi no dia que eu te vi de longe e te imaginei minha namorada.
Nem mesmo quando troquei o primeiro "oi" com você.
Não foi quando sua mão tocou a minha a primeira vez.
Nem mesmo quando a lua iluminou nosso primeiro beijo.
Não foi quando suas lágrimas molharam nossa despedida.
E nem quando você correu em minha direção no reencontro.
Não foi nenhum dos dias que você me surpreendeu com um presente criativo.
Não foi quando você apareceu em casa no meu aniversário surpresa.
Não foi quando eu ouvi que me amava, nem no dia do abraço que nunca terminou.
O dia mais feliz da minha vida aconteceu depois que você já tinha ido embora.
Depois do dia em que você despedaçou meu coração.
Foi depois de me iludir com uma volta temporária.
O dia mais feliz da minha vida aconteceu muito depois de eu amadurecer pra poder descobrir que era o dia mais feliz da minha vida.
Foi muito depois de todas as lágrimas e todos os nomes com que eu te xinguei.
O dia mais feliz da minha vida veio entre dores. Entre um dia de muita dor e outro.
O dia mais feliz da minha vida foi um insight em uma semana preenchida por solidão.
Aconteceu sem eu imaginar.
Aconteceu enquanto eu tentava me reerguer dos tombos e dos chutes que levei.
O dia mais feliz da minha vida foi quando eu percebi que você havia existido em minha vida.
Foi o mais feliz porque eu percebi que isso é ainda melhor do que se eu nunca tivesse te conhecido.
E isso me deu um alívio momentâneo que me fez entender coisas da vida.