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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Saudade da minha terra



Um dia, tudo o que eu acreditava já não valia de mais nada. Coincidentemente, quando deixei tudo pra trás foi porque tudo me deixou pra trás. Então, não havia mais motivo pra ficar, e nenhum motivo pra não ir.
Por não ter felicidade nenhuma em nenhum lugar, qualquer lugar poderia ser um bom lugar pra encontrá-la. Lancei-me a aventuras e a tudo que parecia o mais certo a ser feito. Algum tempo depois, quando dei por mim, percebi que, morando na cidade grande, não me valia de nada. A felicidade não havia me acompanhado.
Olhei tudo ao meu redor e não reconheci nada. Hoje consigo ver o tempo que perdi aqui. Quanto tempo faz que já deveria estar de volta, e ainda estou aqui. Eu quero voltar prá minha terra, prá minha cidade, pra onde eu amo, pra onde está tudo o que amo. Quero voltar pra onde todos sabem meu nome e eu não sou mais um anônimo.
Quero ver de novo, ao raiar do sol pela manhã dos fracos raios de sol em semiluz pelo céu do sertão, a passarada cantando e voando pelo céu, formando uma alvorada que não vi igual em lugar nenhum.
Pela estrada de terra vou caminhando, a grama toda cheia de orvalho e os animais começando a acordar. Cerca dos dois lados, mas para que eles não fujam, e não para que humanos não entrem. Que satisfação em arreiar o burro e cortar o estradão, galopando uma música que não se ouve por aqui. Pelo trote e no som das patas batendo no chão, o gado vai berrando anunciando que mais um dia está começando. Pássaros pra todo lado, piando, cantando, voando, formando grande algazarra. Ao longe se vêem as copas das árvores se mexendo, e asinhas batendo lá dentro.
Meu Deus! Como sofri! Como me arrependo de ter deixado tudo pra trás! Isto aqui não é vida pra mim. Essa cidade não é meu lugar, e isso é visível o tempo todo, em todo lugar. Cada prédio, cada carro, cada pessoa... A saudade é tanta que às vezes chego a chorar em noites de loucura febril.
Não posso dizer que nunca tive alguém, que nunca ninguém me quis bem. Conheci uma morena aqui. Ela me fez feliz. E espero que eu a tenha feito feliz. Ela dizia me querer tão bem, falava palavras tão doces, e compartilhava comigo o desejo de morar no interior. Mas eu tenho pensado muito ultimamente, e tudo isso não me convém. Não é o suficiente pra me manter aqui. Eu vejo seus olhos úmidos e chorosos, e me dá até pena de dizer isso. Quisera que tudo fosse diferente. Mas, por mais que eu explique, essa morena nunca vai entender. Ela não conhece de onde eu vim. Ela nunca vai entender o sistema em que eu fui criado.
Enquanto me perco nessas palavras sonhando com o dia em que pisarei no meu mundo novamente, vejo que, ao longe, alguém está chorando lendo estas palavras de despedida.
Muita gente não entende como eu posso ter tanta saudade do campo, do mato, da terra. Não precisam entender. Não estou aqui pra me explicar. Esse é meu mundo, minha vida.
Que saudade imensa dos domingos, da missa do domingo, da quermesse no domingo após a missa de domingo. Além disso, que saudade de não ir embora no domingo. Como me fazem falta aquelas lembranças daquelas festanças. Gente da minha gente dançando, cantando, se divertindo. Isso não se vê por aqui. Não como eu estou acostumado, não como eu gosto. Lindas meninas...
Eu vivo hoje em dia sem ter alegria. Nem sei por que deixei tudo. Sofri, sofri muito. Com despedida, por não ser ninguém, por não ser alguém, por não conhecer ninguém. O mundo castiga e judia, mas não posso negar o bem que me fez aprender tudo isso. Pois machuca, mas ensina.
Eu vivo hoje contrariado. Não queria estar aqui. Mas jamais estive derrotado. Coloquei-me nas mãos divinas. Elas cuidaram de mim. Elas me guiaram.
Minha mãe foi a primeira a saber. Liguei pra ouvir sua voz. Contei minha decisão. Contei a saudade que estava, que estava largando tudo pra voltar pra tudo o que amo, e pra todos que me amam.
"Cansei de sofrer. Ainda nesta madrugada partirei. Não fico nem mais um minuto aqui. Está decidido. Não volto atrás. Por nada nem por ninguém. Espera que eu estou chegando na terra querida que me viu nascer".
Quando desliguei, já chorando muito, muito mais de alegria, estava meio louco, meio avariado. Comecei a ouvir o galo cantando e o inhambu piando enquanto a noite descia. Montei de volta, peguei a estrada. A lua prateada iluminava tudo refletida na relva molhada.
Eu preciso ir. Foi lá que nasci e é ali que quero morrer.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Me leva pra casa



Eu sei o que o seu sorriso significa. Embora em todas as cenas você pareça feliz, eu sei que de certa forma ainda sou eu o responsável por essa falsidade e pelas noites que ainda insistem em chegar.
Você tenta com palavras jogadas ao mundo, copiadas, fazer com que alguma me atinja, me encontre. E eu com uma frase, uma única frase, mudo todo o seu dia.
É que sou capoeirista. Na roda, o golpe tem que ser certeiro. Se o cara te dá uma armada, você não pode dar a chance do aú. Os golpes são secos e planejados, todos disfarçados em brincadeira, com uma música tocando ao fundo. Do mesmo jeito, eu disfarço o que eu quero dizer em palavras bonitas. Eu sei que aí desse lado você consegue se reconhecer.
Eu sei que de alguma forma você ainda vive a gente, que nem tudo sumiu, se adaptou ou desapareceu. É assim mesmo. Você pode até enganar o mundo, mas a mim nunca. Eu sei ver você. Eu sei o que significa cada sorriso seu. Eu sei que embora todos, e até você às vezes, garantam que tudo passou, você ainda sente uma ausência.
Essa é minha última partida. Não precisa se machucar mais. Prometo que nunca mais vou voltar, nunca mais vou te decepcionar, nunca mais vou me iludir. Essa foi nossa última cena.
Guarde tudo, inclusive as lembranças. Inclusive as que você não tem mais. Guarde tudo. O perfume, os presentes, as memórias. Guarde nossos segredos, nossas aventuras e nossas promessas.
Guarde-me consigo até quando quiser ou até quando aguentar.
Agora eu preciso ir. É minha hora. Espero que eu tenha conseguido te fazer feliz. Era meu objetivo. Se consegui, apenas sorria e pense em mim. Em algum lugar do mundo eu vou ouvir esse sorriso, e saberei que vou embora com o dever cumprido.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tô indo embora



Saí de casa com 17 anos. Era um moleque. A cabeça era mais infantil ainda. Com 21 falava 4 idiomas, perdi minha namorada e roubaram meu carro. 6 meses depois mudei pra São Paulo e tive minha carteira de trabalho assinada pela primeira vez. Meu primeiro emprego: em uma multinacional.
Aos poucos fui me afastando do meu mundo e da minha própria vida. Nem percebi. Joguei meus planos lá longe, lá em cima. Meus sonhos também. Achei que precisaria estar longe de casa também. É sempre assim, quando a gente ouve só o que deseja ouvir. Que jovem nunca deu as costas pro pai pra quebrar a cara anos depois e se arrepender a ponto de ter vergonha de olhar na cara dele?
A maioria de nós que sai de casa assim passa por isso. Começamos a viver sozinhos anos antes da maioria dos jovens sair da barra da saia da mãe. Mas é assim. Tem que ser assim. Saído do meio do mato, sem dinheiro e sem moral, quem vai ligar pro caipira que pede emprego? Tem que meter a cara no mundo, ir embora sem querer ir. A vida é um pouco mais difícil pra nós.
Quem nunca comeu um miojo num sábado a noite sozinho em casa, vendo Zorra Total? A maioria de nós já. A maioria de nós come miojo a semana toda. Por necessidade ou por preguiça. No meu caso, graças a Deus, sempre foi por preguiça. Mas uma coisa todos temos em comum: nenhuma dessas vezes foi rejeitando a comidinha da mamãe.
A maioria de nós deixou pra trás os pais e a namorada. E os amigos. A maioria deles. E todos nós, quando voltamos pra lá, quando voltamos pra casa, não nos reconhecemos no espelho. Não reconhecemos as pessoas na rua, na balada. E as pessoas não nos conhecem.
Meus sonhos estavam onde todo sonho deve estar: nas nuvens. E eu achava que, estando eu onde estivesse, estava construindo os degraus até eles. Foi quando percebi que não. Em primeiro lugar, eu não estava no meu lugar. Se em toda estrada, mais importante do que a velocidade é a direção que se toma, eu me vi seguindo o norte errado. Olhei pra trás e mal vi onde tinha errado. Em qual caminho havia me perdido. Tudo o que percebi foi que não reconhecia mais onde eu estava. Então percebi que era hora de voltar.
Reorganizei meus sonhos. Mudei alguns de lugar. Abaixei a prioridade de uns, aumentei de outros. Refiz minha vida, meu pensamento. Sacodi a poeira. Tirei de perto de mim tudo o que havia me tirado do rumo. E me convenci finalmente que a morena que dizia me querer tão bem, por fim não gostava tanto assim. Ela teria se esforçado mais se gostasse mesmo.
Foi quando, assim como meu primeiro dia fora de casa, me vi sozinho. E não me fez mal. Porque em mim tinha uma força muito grande. Alguma coisa me dizia que eu havia reencontrado a estrada de terra, a poeira vermelha subindo ao longe. A poeira da cidade, a poluição, ainda era meu ar, mas eu já não estava mais aqui. Então comecei a correr bem mais. Muito mais rápido e com muito mais vontade do que tinha feito no caminho de ida.
E quando, naquela curva onde os patos atravessam o caminho sem preocupação, eu vi a casinha por trás da braquiara se erguendo, e as árvores, as vacas e tudo o que agora tinha cor, se erguerem bem à minha frente, as lágrimas em meus olhos eram mais do que emoção canalizada: era a realização de um sonho. Valeu a pena largar tudo pra trás e voltar atrás. Valeu demais a pena colocar meus sonhos no alto, perto de Deus, onde Ele pôde cuidar e me mostrar que, mais do que conhecer a selva de pedra, é preciso aprender sobre a vida.
Você que mora na cidade e me vê todo contente indo embora, voltando prá caipirice do meu mundo, pode até rir de mim e achar que nós não somos bons o suficiente, que não aguentamos a pressão, e tudo o mais. Mas lembre-se sempre que estou indo pra um lugar onde o sol nasce e dorme atrás de nuvens, não de poluição. Nossa chuva levanta um delicioso cheiro de grama e terra molhadas. Nosso rio tem peixes, não pneus. Nossa gente dança e canta como se não houvesse amanhã, bebe e se diverte sem violência, sem piriguetes se assanhando e sem machões que pagam ingresso pra brigar. Nossos carros ficam abertos com o som ligado e o celular dentro, enquanto usamos o caixa eletrônico. Você pode estar rindo de mim agora, dizendo que nunca vou saber o que é malandragem, o que é a vida. Você vai me desculpar, mas não vou mesmo. Pra onde estou indo não existe isso. Nós podemos confiar uns nos outros. Nossos amigos são todos os desconhecidos, não só os que ficam em nossas vidas mais de dois meses ou nos dão carona.
Nossas peles são mais escuras, nossas roupas não custam tanto quanto a de vocês. Mas também não ficamos presos em trânsito, temos o mundo inteiro pra nos divertir, correr, passear com o cachorro. Não precisamos nos confinar em parques nos fins de semana. Não precisamos ganhar tanto quanto vocês, nossa riqueza é outra.
Muitos que me leem não sabem do que estou falando. Talvez nunca venham a saber. Nunca tiveram o prazer de ver a lua prateando o céu na madrugada. Mas estes nem vivem, talvez. São seres humanos vegetando em cima da terra.
Não vou me alongar mais. Tenho uma mala pra arrumar. Quando eu chegar na rodoviária do meu reino encantado, os mesmos olhos negros que me olharam marejados indo embora 8 anos atrás vão repetir aquelas palavras de dias atrás.
"Que bom que você voltou".

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Distância



Primeiramente, saiba que essa carta foi escrita e reescrita várias vezes e durante um longo tempo, pois só almejo realizar o único plano que eu não abandonei. Eu só venho te pedir alguns minutos, já que aqui não há intenção alguma, mas se não for possível, tudo bem. Não fará diferença se mais um pedaço de mim for jogado fora.
O terreno era incerto, e nós caminhávamos no escuro. Mas Deus estava unindo dois corações com sede de desafios e mesmo com as dificuldades iniciais, nós nos gostávamos cada vez mais. Hoje, sem você, eu sei que o tempo voa. Mas naquele contexto era difícil suportar o teimoso relógio que insistia em não trabalhar. Ainda faltam quatro dias... Porém, essa espera interminável compensava. Quando o amanhã se tornava hoje, e nós nos encontrávamos, o mundo parava. Ou melhor, ele girava em função da vontade de dois jovens estarem juntos e felizes. Dane-se o mundo quando você sorri...
O tempo foi passando e logo fizemos um mês juntos. As dificuldades permaneciam e a distância nos incomodava muito. Mesmo assim, sabíamos que estávamos no caminho certo. Com essa certeza, você, mesmo tímido, me pediu em namoro, fazendo meu coração pular de alegria e precedendo o nosso primeiro "te amo".
Ah, se você realmente soubesse o quanto eu te queria, se eu conseguisse mostrar 10% do quanto eu te desejava, quanto eu te amava... O melhor de tudo (mesmo sendo muita coisa) era sua recíproca vontade de estar junto a mim...
Minha vontade de estarmos juntos crescia exponencialmente à medida que nos conhecíamos, e me fazia incrivelmente bem acordar e dormir sabendo que nosso castelo era real e que você realmente era só meu. Meu amor é só seu, seu amor é só meu...
Mas o destino nos prega peças, a vida nos trai. Quando menos esperamos, a cortina se fecha e um único caminho se torna dois. Nessa fase, o céu parece ser intocável, o tombo dói e a madrugada congela a alma com a ausência da despedida diária. E agora, como acordar sem a sua voz? Como passar dias e dias sem te dizer o quanto meu peito está sofrendo? O que fazer quando eu me pegar repetindo alguma mania sua ou até cantando uma música nossa?
Durante essa fase, a vida me exigiu muitas peculiaridades, e eu as criei por questão de sobrevivência. Eu não escolhi amadurecer tanto em um mês, mas o fiz pensando em mim, talvez pela primeira vez. Nunca pense que eu te quis/quero mal, pois esse foi/é o único pensamento que não passa pela minha cabeça. Eu sempre fui grata a você, e não há nenhum motivo pra deixar de ser.
A marca de sol da minha pulseira não está mais aqui, mas tenha certeza que levo comigo todas as nossas lembranças aonde quer que eu vá. Quem consegue ler meu olhar sabe bem disso. Sabe que por trás desse sorriso frio, há doces lembranças de dias inesquecíveis. Por isso, se você vier alguma noite me ver casualmente, não perca tempo se importando com a ausência de nossas coisas em meu quarto. Não será possível dissertar-te sobre meus sentimentos, então confie em meu olhar, ele nunca mentiu pra você.
Cada momento que passamos juntos foi único e maravilhoso. Talvez você até não se lembre, mas a gente era muito bom juntos, não importando como e onde. A vontade de ficarmos juntos - e por toda a vida - falava bem mais alto do que qualquer outra coisa.
Semana passada, eu almoçava com minha amiga, e ela perguntou sobre nós. A conversa foi curta, mas no final ela me disse: "vocês ainda vão se falar". Obviamente, eu fiquei atônita, sem reação para alguma resposta. As palavras dela ecoaram por um bom tempo na minha cabeça. Uma coisa é eu pensar isso (assim como pensei), mas outra bem diferente é alguém que ouviu poucas palavras sobre o extinto "nós" afirmar a mesma certeza. Será coincidência? Será uma grande bobagem ou uma grande verdade? Essas respostas eu entrego na mão de Deus, uma vez que as minhas foram atadas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Estrela cadente



Uma estrela vaga sozinha pelo espaço. Voa à velocidade da luz, mas seus pensamentos estão muito mais rápidos que isso. Passam por ela cometas, planetas, e ela passa por cometas e planetas. Outras estrelas parecem não nota-la. Nem se importam em reparar se parte do seu brilho é pelas lágrimas, ou se ela está mais radiante. Só ela sabe a verdade...
Sai de uma galáxia, entra em outra. Quase é atropelada por um asteróide, que também vaga perdido pelo espaço, mas ele usa violência, e ela usa a saudade. Em direções opostas, ele vai batendo em tudo o que encontra pela frente, ela torce pra não trombar em nada. Ele voa rápido, espera chegar logo. Ela só quer que o tempo passe mais rápido. E assim essa estrelinha caminha pelo som das horas, nos ondas sonoras que o vazio do espaço não permite que se transmitam.
Com um pouco de sorte talvez encontre um planeta vazio onde se alojar. Talvez em uma cratera, em um espaço largo o suficiente onde caiba sua dor, ela possa finalmente enterrar de vez todas as esperanças falsas que alimentou durante todos esses milênios enquanto voava, enquanto fugia. Talvez encontre enterradas outras forças desprezada, outras gravidades zero. E num desses buracos, talvez até rasos demais diante do vazio que a consome, ela possa finalmente descansar em paz e um sol mais próximo finalmente seque as lágrimas que velocidade nenhuma conseguiu tirar de seus olhos.
Tem voado há tanto tempo que nem sabe mais se do que ela fugia ainda está no mesmo lugar, ou sequer se ainda existe. Mal sabe se ela ainda é a mesma, se deveria continuar fugindo. Tanta coisa mudou desde então que, se o que aconteceu fora naquela hora, talvez sua reação tivesse sido diferente. Mas se não tivesse sido antes, não teria chegado onde chegou.
Seus pensamentos mudaram muito nesse tempo todo. Parte da dor deu lugar a experiência, e parte do pessimismo virou conformismo. Não conseguiu colocar em prática todos os planos que tinha traçado. Não cumpriu tudo o que prometeu. Não foi boa o suficiente.
Talvez fugir tenha sido um erro. Talvez o erro tenha sido achar que todo o mundo que ela imaginou existiria de uma forma ou de outra, sem seu esforço. Como mágica. Sem perceber que a mágica, na verdade, é só um amor daquele. O resto precisa de muito esforço pra existir.
E agora ela estava ali, voando, correndo, querendo sumir, lutando com todas suas forças, se esforçando como nunca em sua vida, pra esquecer o amor que foi tudo pra ela. Esforço que deveria ter sido usado pra não perder o amor que foi tudo pra ela. O amor que a fez brilhar mais que todas as outras estrelas, bem mais do que ela jamais tinha brilhado em seus milhões de anos de vida.
A vida, agora, parecia não fazer sentido. Parecia até que era uma regalia à qual ela não tinha direito. Mas nem podia reclamar também: quando mais se sentiu viva, não cuidou pra não perder. E agora estava perdida.
Sentia tanto remorso, tanta dor, tanta tristeza, tanta saudade! Talvez o melhor mesmo fosse explodir e dar chance a um buraco negro e acabar de uma vez com tudo isso.
Preferiu se isolar. Encontrou um planeta sem lua, sem estrela, sem vida. Parou ali e esperou o tempo passar. Sua luz foi sumindo aos poucos. Ninguém a viu morrer, ninguém a viu apagar. E ninguém nunca se interessou em saber.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sua chance passou



Não me venha chorosa, com os olhos cheios d'água. Suas lágrimas de crocodilo não me convecem mais. Meu coração é mole, mas quando se sente desprezado fica frio e rancoroso. Esqueça nossa história, nossas promessas. Eu nem lembro de mais nada. Eu nem me importo com mais nada. Seu comportamento baixo e vil me enojam. Há muito tempo você não é mais por quem eu me apaixonei.
Nem sei por que insisti tanto tempo em você. Nem sei por que continuei acreditando que você pudesse voltar a ser o que era. Não correspondeu, não foi? Esperou tudo de mim e não deu nada de si. E ainda espera que eu saia culpado da história? Desculpe, meu amor, não é assim que as coisas funcionam.
Você teve todas as chances que precisou. E muitas mais além do que eu costumo dar. Eu penso assim: todo mundo merece uma segunda chance. Mas você teve mais. Muito mais. E não aproveitou nenhuma. Nunca deu ouvidos ao que eu falava, pedia, insistia, escrevia. Sério que você não consegue entender por que eu vim embora?
Será que eu preciso lembrar de todas as vezes que pedi pra não me deixar sozinho, ou você consegue lembrar sozinha que não grudou em mim quando pedi?
Será que agora, depois de tanto tempo, você consegue entender que eu estava me sentindo sozinho, pedindo sua companhia, e tudo que você fazia era reclamar de como eu reclamava das coisas?
E se eu disser agora pra você olhar pra trás e ver direitinho o que você era e o que passou a ser, hoje você conseguiria entender o que eu quis te mostrar esse tempo todo e você, novamente, claro, se preocupou muito mais em ignorar o que eu dizia invés de pensar que eu poderia estar certo?
E se hoje eu pedir novamente pra você ler com carinho estas palavras, da mesma forma que eu pedia mais carinho, você conseguiria? Claro que não. Estas palavras são duras. Tão dura quanto foi minha queda quando finalmente percebi.
Percebi que você não se esforçava mais. Que não se importava mais em conquistar. A conquista é diária, e a sua conquista já tinha sido conquistada, né? Pra que continuar se esforçando? Realmente, não tinha motivo. Exceto que, não me conquistando a cada dia, você estava me perdendo a cada dia. E então, mon amour, sua conquista já não era mais sua.
E por que não sorriu quando pedi? Por que não chegou mais cedo? Por que, meu Deus!, não ficou comigo quando pedi?
Agora você me pede pra ficar, tenta me convencer do contrário, tenta me convencer de que eu estou errado, de que a decisão foi precipitada. Não, não foi. A decisão foi tomada bem antes. Mas eu quis dar uma chance a mais pra nós dois. Mas você nunca foi boa em aproveitar as chances, né?
Agora estou sozinho, como você gostava de me deixar.
Dessa vez foi minha vez de ir embora.
Você quer saber se eu vou voltar?
Diga você. Eu vou?

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O inverno do nosso amor




Eu achava que você estaria comigo quando tempos difíceis viessem. Prá minha surpresa, foi você quem me trouxe tempos difíceis.
Desde que eu te conheci, naquelas tardes vendo o sol se pôr, que eu procuro descobrir novas maneiras de cantar o amor. Sempre tantas emoções, uma aventura que não tem mais fim. Que eu celebro nas canções que eu fiz e que você fez pra mim.


Foi num fim de relacionamento, fim de tarde, que nos conhecemos. Ou que pelo menos soubemos da existência um do outro. Era outono, quando comecei escrever. Era inverno, quando você me encontrou. Era primavera, quando nossas vidas se encontraram. E era verão, na primeira tentativa falha de nos personificarmos.
Nosso trem partiu de uma estação solidão, na estação do outono, e parou em quatro estações até terminar a viagem. Quando o inverno chegou, nosso abraço espantou o frio, e eu pude até te trazer uma flor de Paris, um ano e meio antes de você me trazer rosas vermelhas. Um apito toca, e nova estação se aproxima. É o nosso trem qua parte levando um olhar triste, e deixando na plataforma outro par de olhos que parece não acreditar no que está vendo. E no que está acontecendo. E então, numa das estações, resolvemos entrar juntos no trem. E o trem andou.
Em cada curva fechada em alta velocidade, a emoção aumentava, e a ansiedade por chegar ao destino, mesmo que ele não existisse, aparecia vez ou outra, em uma declaração, em uma música, em um olhar.
E foi assim que eu te encontrei: curtindo uma fossa. Nossos corações se reconheceram e quiseram ficar juntos. Esse trem subiu, desceu, parou, andou, nos consolou e levou ao paraíso. E nesse tempo, pudemos conversar sobre essas coisas da vida, como você mesma sugeriu naquele inverno.


Winter, Spring, Summer, Fall
All you have to do is call
And I'll be there


E então chegou aquela estação. Não a final, mas a estação que não estava no mapa. O trem parou. O silêncio tomou conta de nossas vidas, e pela primeira vez nos olhamos com medo do que viria pela frente. Mais que isso, com incerteza do que viria pela frente.

Sem maquinista, percebemos que aquele trem não continuaria a andar, e que aquela estação, na verdade, era uma divisão dos caminhos. Não cabíamos nós dois. Era um de cada vez. Cada um pra um lado. Como dois estranhos.

Estranhamente a estação era verão. E a estação, na verdade, não existia. Conforme nos afastávamos do trem, ele não só ia se escondendo na penumbra da noite que levava todas as luzes embora, como também desaparecia com mais velocidade do que o esperado. Já não mais nos víamos, já não mais nos ouvíamos, apesar de todos os gritos de dor, e das lágrimas caindo como trovões no chão. Já não nos enxergávamos, apesar de nos procurarmos o tempo todo.

Não posso negar que tudo que vivemos foi mesmo uma grande poesia o tempo todo. Não vou mentir que deixei de te amar de uma hora pra outra, que nunca senti emoção, que meu coração não disparava só com a possibilidade de nos encontrarmos depois de muito tempo. Não pense que você foi mais uma, não pense que foi algo errado que eu fiz ou que você fez. Não é isso.

Pelo porta-retrato, enquanto o seguro olhando nossa foto, sei que do outro lado você também segura o seu, um com uma foto igual à minha, com um verso no verso. Nessa hora, nem percebemos que estamos nos olhando. Um apito conhecido, com sua voz, com minha voz, toca ao fundo, mas, nesse momento, nem mesmo a lua, brilhando sobre nós, sabe dizer por quê não consegue nos iluminar.

Qualquer um é capaz de olhar para o longe e ver o sol se acabando. Qualquer um pode andar pela praia com a cabeça baixa e lamentar tudo que passou. Qualquer um pode pintar com aquarela o mar trazendo aos poucos a noite. No entanto, poucos são capazes de transformar em poesia os sentimentos que esse fim de tarde proporciona. Da mesma forma, é muito difícil traduzir em palavras o que um amanhecer causa de emoção, quando isso significa que é um novo amor amanhecendo em nossa vida. Você é uma pessoa brilhante, e sei que é capaz de reacender o sol em sua vida, mesmo sem mim. Chegou a nossa hora de nos separarmos. Não pense que meu semblante sério é indiferença a tudo que passou e a tudo que está sentindo. Era minha hora de partir.

E foi assim que você me achou: curtindo uma fossa.