Um dia, tudo o que eu acreditava já não valia de mais nada. Coincidentemente, quando deixei tudo pra trás foi porque tudo me deixou pra trás. Então, não havia mais motivo pra ficar, e nenhum motivo pra não ir.
Por não ter felicidade nenhuma em nenhum lugar, qualquer lugar poderia ser um bom lugar pra encontrá-la. Lancei-me a aventuras e a tudo que parecia o mais certo a ser feito. Algum tempo depois, quando dei por mim, percebi que, morando na cidade grande, não me valia de nada. A felicidade não havia me acompanhado.
Olhei tudo ao meu redor e não reconheci nada. Hoje consigo ver o tempo que perdi aqui. Quanto tempo faz que já deveria estar de volta, e ainda estou aqui. Eu quero voltar prá minha terra, prá minha cidade, pra onde eu amo, pra onde está tudo o que amo. Quero voltar pra onde todos sabem meu nome e eu não sou mais um anônimo.
Quero ver de novo, ao raiar do sol pela manhã dos fracos raios de sol em semiluz pelo céu do sertão, a passarada cantando e voando pelo céu, formando uma alvorada que não vi igual em lugar nenhum.
Pela estrada de terra vou caminhando, a grama toda cheia de orvalho e os animais começando a acordar. Cerca dos dois lados, mas para que eles não fujam, e não para que humanos não entrem. Que satisfação em arreiar o burro e cortar o estradão, galopando uma música que não se ouve por aqui. Pelo trote e no som das patas batendo no chão, o gado vai berrando anunciando que mais um dia está começando. Pássaros pra todo lado, piando, cantando, voando, formando grande algazarra. Ao longe se vêem as copas das árvores se mexendo, e asinhas batendo lá dentro.
Meu Deus! Como sofri! Como me arrependo de ter deixado tudo pra trás! Isto aqui não é vida pra mim. Essa cidade não é meu lugar, e isso é visível o tempo todo, em todo lugar. Cada prédio, cada carro, cada pessoa... A saudade é tanta que às vezes chego a chorar em noites de loucura febril.
Não posso dizer que nunca tive alguém, que nunca ninguém me quis bem. Conheci uma morena aqui. Ela me fez feliz. E espero que eu a tenha feito feliz. Ela dizia me querer tão bem, falava palavras tão doces, e compartilhava comigo o desejo de morar no interior. Mas eu tenho pensado muito ultimamente, e tudo isso não me convém. Não é o suficiente pra me manter aqui. Eu vejo seus olhos úmidos e chorosos, e me dá até pena de dizer isso. Quisera que tudo fosse diferente. Mas, por mais que eu explique, essa morena nunca vai entender. Ela não conhece de onde eu vim. Ela nunca vai entender o sistema em que eu fui criado.
Enquanto me perco nessas palavras sonhando com o dia em que pisarei no meu mundo novamente, vejo que, ao longe, alguém está chorando lendo estas palavras de despedida.
Muita gente não entende como eu posso ter tanta saudade do campo, do mato, da terra. Não precisam entender. Não estou aqui pra me explicar. Esse é meu mundo, minha vida.
Que saudade imensa dos domingos, da missa do domingo, da quermesse no domingo após a missa de domingo. Além disso, que saudade de não ir embora no domingo. Como me fazem falta aquelas lembranças daquelas festanças. Gente da minha gente dançando, cantando, se divertindo. Isso não se vê por aqui. Não como eu estou acostumado, não como eu gosto. Lindas meninas...
Eu vivo hoje em dia sem ter alegria. Nem sei por que deixei tudo. Sofri, sofri muito. Com despedida, por não ser ninguém, por não ser alguém, por não conhecer ninguém. O mundo castiga e judia, mas não posso negar o bem que me fez aprender tudo isso. Pois machuca, mas ensina.
Eu vivo hoje contrariado. Não queria estar aqui. Mas jamais estive derrotado. Coloquei-me nas mãos divinas. Elas cuidaram de mim. Elas me guiaram.
Minha mãe foi a primeira a saber. Liguei pra ouvir sua voz. Contei minha decisão. Contei a saudade que estava, que estava largando tudo pra voltar pra tudo o que amo, e pra todos que me amam.
"Cansei de sofrer. Ainda nesta madrugada partirei. Não fico nem mais um minuto aqui. Está decidido. Não volto atrás. Por nada nem por ninguém. Espera que eu estou chegando na terra querida que me viu nascer".
"Cansei de sofrer. Ainda nesta madrugada partirei. Não fico nem mais um minuto aqui. Está decidido. Não volto atrás. Por nada nem por ninguém. Espera que eu estou chegando na terra querida que me viu nascer".
Quando desliguei, já chorando muito, muito mais de alegria, estava meio louco, meio avariado. Comecei a ouvir o galo cantando e o inhambu piando enquanto a noite descia. Montei de volta, peguei a estrada. A lua prateada iluminava tudo refletida na relva molhada.
Eu preciso ir. Foi lá que nasci e é ali que quero morrer.



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Sempre, e em todo lugar, palavras são proferidas, rearranjadas de tal forma que tornam único cada momento. Estas eu agrupei para que você fuja da realidade por uns instantes.