[ do livro em qualquer lugar do mundo ]
Muito tempo já havia passado, desde aquela última vez... Eu já nem lembrava mais de você, já tinha superado tudo. Já nem lembrava que você existia mais. Quanto mais que um dia tinha existido na minha vida...
Aconteceu num desses dias que eu saio só pra ver a dupla que mais gosto, beber meu hifi e curtir a noite do interior. Estava com minha turma, aquela que você não faz ideia de quem seja. Claro, ela só passou a existir porque você não existia mais...
Eu andava distraído, sem preocupações. Tento me manter sempre assim. Os dias são curtos demais pra fica-los gastando com besteiras. Foi então que aconteceu... Vindo em minha direção, você. Tudo durou menos de 2 segundos, mas o tempo pareceu parar e todos os sons sumiram. Você veio com aquele olhar de mistério, e o sorriso enigmático, como se dissesse alguma coisa, como se insinuasse que sabia de alguma coisa. Passou por mim, esbarrando no meu ombro. Deixou em mim aquele perfume que me enfeitiçava... Nessa hora um flash brilhou em meus olhos. Por instinto, fechei-os com força e quando os reabri, não estava mais no mesmo lugar de antes. Eu estava mais baixo que o normal, e minhas mãos estavam mais finas. Tudo estava claro demais. Não reconheci aquele lugar. Eu caminhava calmamente, como se soubesse onde estava indo, como se soubesse o que estava fazendo. Sentia uma confiança muito grande, e uma certeza muito grande das coisas.
Apesar de tanta segurança, senti meus olhos ficarem molhados e a visão embaçar lentamente. Levei as mãos ao rosto, mas nada senti. Estava tudo normal. Não estava entendendo nada! Como... o quê...
E então na minha frente, ainda embaçado, começou a surgir, de costas, uma figura que me era familiar demais. Um pouco mais alto, cabelo preto e curto... Aproximei-me. Não precisei chamar. A figura virou-se. Era eu mesmo. Meu eu exterior olhou-me por um tempo, como se tentasse entender o que estava acontecendo, como se os olhos tentassem focar a imagem...
- Precisamos conversar, falei.
- Eu já sei o que você vai falar, meu outro eu atalhou.
- Sei que você pensa um monte de besteiras, tirou várias das suas conclusões, continuei. Mas, por favor, acredite em mim. Acredite na minha palavra. Eu fui verdadeira com você o tempo todo. Enquanto estivemos juntos, eu fui fiel a você.
- Mas não estamos mais juntos! O que significa que pode não estar sendo verdadeira agora. Significa que você falar que foi fiel a mim enquanto estivemos juntos pode também ser uma mentira, porque não estamos mais juntos!
Ainda assim sentia-me seguro, sentia-me firme. Meu outro eu disfarçou algumas lágrimas. Eu me sentia por cima, sentia que estava fazendo tudo certo. Não sei por que, mas sentia isso.
- Eu só tenho mais uma pergunta - ele continuou.
Olhei com atenção e ele me olhava.
Nesse momento uma fumaça branca começou a preencher o espaço entre nós, fundindo o que era chão, céu e imaginação. Ouvi sua voz saindo, mas não pude distinguir sons. Começamos a nos afastar sem nos mover. Senti um empuxo muito forte me jogando pra trás, e um flash branco e forte me cegou por uns instantes. Por instinto, fechei os olhos, e quando reabri estava apoiado numa parede, tossindo, tentando retomar a respiração, e muitas pessoas em volta de mim com olhar de preocupadas, chamando meu nome. Ouvi ecos, ouvi gritos, ouvi meu nome. Mas não sabia diferenciar muita coisa entre tantos sons se misturando.
Ergui a cabeça, ainda me segurando. Olhei em volta, tentei reconhecer rostos. Tentei retomar a consciência. As pernas estavam meio bambas. Enxuguei o suor do rosto e saí correndo, meio tropeçando, em direção à direção que você seguia quando tudo aconteceu... As pessoas me olharam meio perplexas. Não estava entendendo nada... Até o fim da noite não mais te encontrei, nem sequer algum conhecido seu.
Não soube explicar a ninguém o que tinha sido aquilo. Mas, naquela noite, quando cheguei em casa, senti minha mão formigando, doendo, ardendo. Nas costas dela, arranhado recentemente, estava marcado o número 26.