em qualquer lugar do mundo

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Nosso fim



Nossas palavras, antes certas, não se encontram mais. Nossos pensamentos, antes iguais, nem se parecem mais. Tantas coisas que chamamos de coincidências e achávamos que tínhamos em comum não passam de erros que o tempo se encarregou de mostrar. E o nosso mundo encantado aos poucos foi se revelando um mundo de areia.
Minhas palavras, antes emotivas, agora são suspeitas de um passado que não existiu. E assim sua ansiedade em me conhecer foi sendo substituída por decepção à medida que descobria meus defeitos.
As palavras, antes um diferencial entre a gente, agora se perdem em discussões inúteis e cada vez mais frequentes, que sempre me fazem pensar por que existem se nosso começo, embora envolto por muito mais pessoas, sempre teve só dois atores principais.
Meus defeitos te incomodam, e a nossa relação de fã e ídolo anda tão abalada que não sei mais se devo escrever, se serei julgado ou só admirado, como nos bons tempos.
Não sei se é possível continuar remendando, nem posso dizer se ainda temos solução. Éramos, no começo, a solução um do outro, e agora parece que ficamos juntos todo esse tempo só pra responder a pergunta de por quê nunca ficamos juntos pra valer. Talvez seja nosso fim, mesmo, não ficar juntos. E quem dirá que não existe razão?
Talvez o certo seja o avesso de nós dois. E o nosso avesso é exatamente tudo o que não somos mais. Talvez simplesmente não existamos pra ficar juntos, apesar de todas as certezas e todos os esforços.
Talvez a solução esteja muito mais perto e seja muito mais simples do que pensamos.
Afinal, todo problema carrega sua própria solução.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Metalinguagem III



O prato é de quem come, não de quem o fez, diz o ditado.
Escrevo pra mim, por mim. Se você me lê e se sente igual a mim, continue. É bem provável que tenhamos passado por experiências parecidas ou iguais. Se não lhe agrada, leia assim mesmo. Pode ser que um dia lhe sirva de alguma coisa. Nunca despreze as palavras de quem sabe o que está falando. Nunca se sinta superior o suficiente pra desprezar uma opinião. Até uma opinião contrária ajuda a abrir a cabeça.
E você vai precisar de cabeça aberta pra entender algumas coisas. Se minhas palavras parecem sem sentido, a culpa não é minha. Elas foram escolhidas cuidadosamente, e foram arranjadas de forma que qualquer um com um mínimo de interesse, ou um mínimo de forças, consiga entender.
Abra seu coração ao meu ler. Não venha na defensiva. A maioria delas vai somente despertar sua curiosidade ou sua imaginação. Esse é meu interesse. Não quero que você conheça toda a minha história, que pode por fim não interessar a ninguém. O que me importa é que eu consiga compartilhar o que aprendi.
Aqui um dia já me disseram "você está escrevendo minha história". Não, estou escrevendo a minha história. E a história que a minha cabeça cria, que é história minha, no fundo. Porém, se você me lê e se reconhece, então a história é sua. Claro, por que não? A história é de quem lê, não de quem escreve.
Se você gosta, conte pra alguém. Outras pessoas podem gostar também, outras pessoas podem se reconhecer também. É isso que eu faço: estou contando histórias para outras pessoas gostarem, para outras pessoas se reconhecerem. Minha linguagem é fácil. Vem de dentro. Não preciso de malabarismos poéticos. Nem sei se os sei fazer.
Alguns relatos têm dono, nome e sobrenome. Desculpe, não trabalho com nomes. Nem com o meu próprio. Não é pra mim que estou escrevendo. Quero que você se reconheça, quero que minhas palavras sejam um espelho pra você. Quero dar respostas pra perguntas que você nem sabia que tinha.
E, sendo meus, agora seus, que lê, tenha muito cuidado. Pois você acaba de escrever parte da sua história. Ela está aqui. E o que é nosso, devemos cuidar muito bem. Se perdermos, pode ser que nunca mais o tenhamos novamente.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Medo



[ baseado numa conversa real ]

- O medo é uma fração de segundo. Ela vai se casar, mas é daqui um mês só. Ela é sua melhor amiga, eu sei. Isso não quer dizer que sua vida vai ficar sozinha. Ela sempre vai estar aí pra você. Algumas coisas vão mudar, claro. Mas as coisas mudam o tempo inteiro. Isso que você está sentindo é, antes de mais nada, medo do desconhecido. Não foi assim quando você chegou no colegial? Você não tinha medo do que ia encontrar? Não foi assim quando você entrou na faculdade? E quantas pessoas já foram embora da sua vida? Você não ficou com medo quando elas foram? Não é medo da solidão. É medo de não saber o que fazer. É medo do desconhecido.
Mas como você pode pensar em medo de um tempo que está tão longe? Por que você quer viver o futuro tão logo? Você nem sabe como vai ser o dia de amanhã, como pode ficar com medo de algo que nem existe? Se você parar pra pensar, o futuro não existe. É só uma projeção do que talvez esteja por vir. É uma imaginação. Você por acaso consegue tocar em algo do seu passado? Não. Por quê? Pelo mesmo motivo que não consegue tocar o futuro: ele não existe! É tudo memória, é tudo coisa da sua cabeça. Nada existe, nada é real. Muito menos esse medo. Esse medo não existe. É criação sua. É sombra do futuro. E o futuro também é criação sua. Ele vai ser exatamente como você quer que seja. Mas, pra isso, você precisa construí-lo. E só existe um momento em que você pode fazer o que quiser. É agora. O quê você quer fazer agora? Quer ter medo? Não, não quer. Confia em mim. Você nunca estará só. Mudanças virão, mas muitas outras mudanças já aconteceram na sua vida. Quisera que muitas coisas nunca mudassem, que continuassem exatamente como estão. Mas é preciso evoluir, é preciso crescer, é preciso ir adiante. Não é possível ir mais à frente sem se desfazer de algumas coisas. Pensa bem: quando você poda uma árvore, ela cresce mais ainda. Tudo isso é necessário. Eu também queria que muita coisa que ficou pra trás ainda estivesse comigo. Mas não estão. E nunca voltarão. É um erro comum, esse. Pra reviver o passado, precisaríamos reviver muitas coisas, muitas delas que nem existem mais. O passado e o futuro são seres inalcançáveis, porém, não é possível pensar em futuro sem esquecer o passado. Agora, aposto que você nem está mais com medo.
- Mas como você sabe disso tudo?
- Eu já passei por tudo isso. Só que no meu caso eu perdi pra sempre...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Um sonho dentro de um sonho



[ do livro em qualquer lugar do mundo ]

Muito tempo já havia passado, desde aquela última vez... Eu já nem lembrava mais de você, já tinha superado tudo. Já nem lembrava que você existia mais. Quanto mais que um dia tinha existido na minha vida...
Aconteceu num desses dias que eu saio só pra ver a dupla que mais gosto, beber meu hifi e curtir a noite do interior. Estava com minha turma, aquela que você não faz ideia de quem seja. Claro, ela só passou a existir porque você não existia mais...
Eu andava distraído, sem preocupações. Tento me manter sempre assim. Os dias são curtos demais pra fica-los gastando com besteiras. Foi então que aconteceu... Vindo em minha direção, você. Tudo durou menos de 2 segundos, mas o tempo pareceu parar e todos os sons sumiram. Você veio com aquele olhar de mistério, e o sorriso enigmático, como se dissesse alguma coisa, como se insinuasse que sabia de alguma coisa. Passou por mim, esbarrando no meu ombro. Deixou em mim aquele perfume que me enfeitiçava... Nessa hora um flash brilhou em meus olhos. Por instinto, fechei-os com força e quando os reabri, não estava mais no mesmo lugar de antes. Eu estava mais baixo que o normal, e minhas mãos estavam mais finas. Tudo estava claro demais. Não reconheci aquele lugar. Eu caminhava calmamente, como se soubesse onde estava indo, como se soubesse o que estava fazendo. Sentia uma confiança muito grande, e uma certeza muito grande das coisas.
Apesar de tanta segurança, senti meus olhos ficarem molhados e a visão embaçar lentamente. Levei as mãos ao rosto, mas nada senti. Estava tudo normal. Não estava entendendo nada! Como... o quê...
E então na minha frente, ainda embaçado, começou a surgir, de costas, uma figura que me era familiar demais. Um pouco mais alto, cabelo preto e curto... Aproximei-me. Não precisei chamar. A figura virou-se. Era eu mesmo. Meu eu exterior olhou-me por um tempo, como se tentasse entender o que estava acontecendo, como se os olhos tentassem focar a imagem...
- Precisamos conversar, falei.
- Eu já sei o que você vai falar, meu outro eu atalhou.
- Sei que você pensa um monte de besteiras, tirou várias das suas conclusões, continuei. Mas, por favor, acredite em mim. Acredite na minha palavra. Eu fui verdadeira com você o tempo todo. Enquanto estivemos juntos, eu fui fiel a você.
- Mas não estamos mais juntos! O que significa que pode não estar sendo verdadeira agora. Significa que você falar que foi fiel a mim enquanto estivemos juntos pode também ser uma mentira, porque não estamos mais juntos!
Ainda assim sentia-me seguro, sentia-me firme. Meu outro eu disfarçou algumas lágrimas. Eu me sentia por cima, sentia que estava fazendo tudo certo. Não sei por que, mas sentia isso.
- Eu só tenho mais uma pergunta - ele continuou.
Olhei com atenção e ele me olhava.
Nesse momento uma fumaça branca começou a preencher o espaço entre nós, fundindo o que era chão, céu e imaginação. Ouvi sua voz saindo, mas não pude distinguir sons. Começamos a nos afastar sem nos mover. Senti um empuxo muito forte me jogando pra trás, e um flash branco e forte me cegou por uns instantes. Por instinto, fechei os olhos, e quando reabri estava apoiado numa parede, tossindo, tentando retomar a respiração, e muitas pessoas em volta de mim com olhar de preocupadas, chamando meu nome. Ouvi ecos, ouvi gritos, ouvi meu nome. Mas não sabia diferenciar muita coisa entre tantos sons se misturando.
Ergui a cabeça, ainda me segurando. Olhei em volta, tentei reconhecer rostos. Tentei retomar a consciência. As pernas estavam meio bambas. Enxuguei o suor do rosto e saí correndo, meio tropeçando, em direção à direção que você seguia quando tudo aconteceu... As pessoas me olharam meio perplexas. Não estava entendendo nada... Até o fim da noite não mais te encontrei, nem sequer algum conhecido seu.
Não soube explicar a ninguém o que tinha sido aquilo. Mas, naquela noite, quando cheguei em casa, senti minha mão formigando, doendo, ardendo. Nas costas dela, arranhado recentemente, estava marcado o número 26.