Vivemos de sonhos, mas sobrevivemos de sobras. Muitas vezes nem percebemos quando estamos vivendo de sobras. Seja um fim de relacionamento, que não carrega mais aquela magia de antes, e fica aquela impressão de que aquilo não deveria estar acontecendo. Seja um amigo que ficou com você depois de tempos idos, de tempos muito melhores, de quando a felicidade era uma constante. Seja quando você percebe que muito do que existia em sua vida, não existe mais. Mudancinhas pequenas, uma atrás da outra, "que mal pode fazer?", se tornam grandes mudanças. E a essência do que você costumava chamar de "só seu" se perde. Você começa a sentir que aquele não é mais o seu lugar. Não é você quem não se adapta: na verdade, o mundo que você criou, ou pelo menos ajudou a criar, não existe mais.
Eu já vivi de sobras. De sobras de relacionamentos, de sobras de amizades. Do meu mundo, quase nada sobra hoje. Comecei a me dar conta de quanto fui perdendo, mudando, abrindo mão da minha vontade pra me adaptar às mudanças. Percebi quanta coisa fui deixando pra trás, quanto da minha essência se perdeu nisso tudo. Descobri que, por não me adaptar mais ao meio, o problema não era comigo, mas sim porque estava me forçando a viver num mundo que não é meu, com gente que não faz meu estilo, com músicas que não gosto.
O primeiro passo pra uma mudança é a insatisfação. Eu estou insatisfeito com muitas coisas, e há um tempo entendi que era hora de mudar. Mas mudar de volta prá minha realidade. Porque tantas mudanças me afastaram demais do que eu planejei, do que eu queria, de lugares, pessoas e comportamentos que me faziam feliz.
A primeira mudança aconteceu ontem. Estava vivendo de sobras. No meu ideal de felicidade, quando a história começou, eu estava onde queria com quem queria. Sucessivas mudanças pequenas, que a gente sempre classifica como "inofensivas", me fizeram viver de sobras por muito tempo. E eu não percebia isso. Num certo dia me dei conta de que aquilo não era pra mim. Pelo menos, não era mais pra mim.
Durante 3 anos e 7 meses aquela foi minha casa. O lugar que eu mais gostava, meu ambiente de trabalho. Um resgate novo, recente, do cara que me levou pra lá, transformou aquele ambiente num lugar muito melhor, muito mais animado, amistoso como era quando cheguei lá. Porém aquilo era uma sobra. Eu estava sobrando. Eu era a peça remanescente do passado, dos tempos bons. Essa era a hora da mudança. E eu mudei.
Não gosto de falar em despedida. Gosto de pensar que é um até logo. Aquele lugar, aquelas pessoas, vão ficar na minha memória como uma boa lembrança. Consegui fazer do passado o lugar onde tudo começou, e não onde tudo se perdeu.
É isso. Hoje vim pra olhar pela última vez, pra me certificar de que não estava deixando pra trás nada além de alguns pedaços do meu coração. Hoje eu vim me despedir e voltar pro meu mundo.





