em qualquer lugar do mundo

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sábado, 28 de agosto de 2010

Somente vim dizer adeus e partir



Vivemos de sonhos, mas sobrevivemos de sobras. Muitas vezes nem percebemos quando estamos vivendo de sobras. Seja um fim de relacionamento, que não carrega mais aquela magia de antes, e fica aquela impressão de que aquilo não deveria estar acontecendo. Seja um amigo que ficou com você depois de tempos idos, de tempos muito melhores, de quando a felicidade era uma constante. Seja quando você percebe que muito do que existia em sua vida, não existe mais. Mudancinhas pequenas, uma atrás da outra, "que mal pode fazer?", se tornam grandes mudanças. E a essência do que você costumava chamar de "só seu" se perde. Você começa a sentir que aquele não é mais o seu lugar. Não é você quem não se adapta: na verdade, o mundo que você criou, ou pelo menos ajudou a criar, não existe mais.
Eu já vivi de sobras. De sobras de relacionamentos, de sobras de amizades. Do meu mundo, quase nada sobra hoje. Comecei a me dar conta de quanto fui perdendo, mudando, abrindo mão da minha vontade pra me adaptar às mudanças. Percebi quanta coisa fui deixando pra trás, quanto da minha essência se perdeu nisso tudo. Descobri que, por não me adaptar mais ao meio, o problema não era comigo, mas sim porque estava me forçando a viver num mundo que não é meu, com gente que não faz meu estilo, com músicas que não gosto.
O primeiro passo pra uma mudança é a insatisfação. Eu estou insatisfeito com muitas coisas, e há um tempo entendi que era hora de mudar. Mas mudar de volta prá minha realidade. Porque tantas mudanças me afastaram demais do que eu planejei, do que eu queria, de lugares, pessoas e comportamentos que me faziam feliz.
A primeira mudança aconteceu ontem. Estava vivendo de sobras. No meu ideal de felicidade, quando a história começou, eu estava onde queria com quem queria. Sucessivas mudanças pequenas, que a gente sempre classifica como "inofensivas", me fizeram viver de sobras por muito tempo. E eu não percebia isso. Num certo dia me dei conta de que aquilo não era pra mim. Pelo menos, não era mais pra mim.
Durante 3 anos e 7 meses aquela foi minha casa. O lugar que eu mais gostava, meu ambiente de trabalho. Um resgate novo, recente, do cara que me levou pra lá, transformou aquele ambiente num lugar muito melhor, muito mais animado, amistoso como era quando cheguei lá. Porém aquilo era uma sobra. Eu estava sobrando. Eu era a peça remanescente do passado, dos tempos bons. Essa era a hora da mudança. E eu mudei.
Não gosto de falar em despedida. Gosto de pensar que é um até logo. Aquele lugar, aquelas pessoas, vão ficar na minha memória como uma boa lembrança. Consegui fazer do passado o lugar onde tudo começou, e não onde tudo se perdeu.
É isso. Hoje vim pra olhar pela última vez, pra me certificar de que não estava deixando pra trás nada além de alguns pedaços do meu coração. Hoje eu vim me despedir e voltar pro meu mundo.


domingo, 22 de agosto de 2010

Felicidade



"É fim de festa na cidade"


Meu cachorro, o Tevez, já aprendeu que, quando chego em casa no fim da tarde, ou no começo da noite, como preferirem, é hora de passear. Ele fica uma pilha atrás de mim. Fica me olhando, fica em volta de mim... Quando eu pego a coleirinha azul, então, ele a cheira e corre pro portão, como se não subesse ainda que tem que pôr a coleira antes de sair. Começa a arranhar o portão e me puxa, normalmente prá direita.
O domingo termina cedo em Votuporanga. Nesse horário já é difícil encontrar carros pelas ruas e até pessoas. Eu deixo o Tevez guiar o passeio, só o impeço de entrar em casas e de atravessar a rua quando vem carro. Até parece que ele sabe o caminho de ida e o de volta.
Enquanto ele cheira cada mínimo detalhe da rua - e deixa sua marca em postes, árvores e sacos de lixo - eu aproveito pra aproveitar os detalhes do meu bairro. Nós dois, ali, machos de espécies, até parece que nos entendemos. Não conversamos, mas nos entendemos.
As casas estão todas fechadas ou escuras. As que têm gente ainda, estão com a porta aberta, por causa do calor, ou estão sentadas no alpendre, jantando, ouvindo rádio, conversando. A luz amarelada e fraca dos postes da rua dá um clima de nostalgia pros lugares. Como se dissesse que só falta eu ir dormir prá cidade apagar. Mas nada está dormindo ainda.
O Tevez me puxa pra lugares que eu pouco frequento. Dois quarteirões apagados, quase desertos. Na Concha Acústica, longe de onde estamos, localizada onde os Correios chamam de centro da cidade, está tendo a missa da família. O vento traz o som do povo orando em uma só voz, e em uma das casas um senhor de idade ouve a missa pelo rádio, e eu escuto a voz do Padre Carlos, da São Bento, lembrando o que o Evangelho fala sobre os casais. É a missa da família, acontecendo lá longe de mim.
O Tevez me puxa novamente, e eu vejo um homem, na porta de sua casa, no alpendre, descalço, de short e camiseta, assistindo à televisão, com um prato de comida na mão. E até ouço em outras casas outros talheres batendo no prato, e até sinto o cheiro de comida escapando das cozinhas.
Vejo casais se despedindo, e um deles montando a motinho e indo embora. Não são nem oito horas da noite, e a cidade praticamente parou.
Fico pensando se aquela gente realmente precisa de alguma oração. Quero dizer, realmente precisa. Mas quem precisa mais: eles ou esse monte de gente aqui da cidade grande que passa em frente à igreja e não faz o sinal da cruz? No fim do mês, quem tem mais razão em reclamar do salário baixo?
Vejo as pessoas calmas em suas casas. Portão baixo, portas abertas. Senhoras de idade na frente de casa, cachorros latindo por qualquer coisa... Fico pensando se realmente é o dinheiro que traz felicidade... Se viver amontoado de gente, doar a vida pelo trabalho, é mesmo o caminho pra uma velhice tranquila... Será que não era disso que Jesus falava, quando condenou o acúmulo de riquezas?
Amanhã, todas essas pessoas estarão aqui, ainda. Acordarão em suas casas, voltarão pra esses mesmos alpendres na hora do almoço. Terão outras noites tranquilas, outras manhãs frias, outras tardes quentes. Hoje à noite, sou eu quem vai embora. De novo. Como tem acontecido tanto nos últimos anos.
Amanhã não vou passear com o Tevez. Ele vai me procurar pela casa, como sempre faz, mas não vai me encontrar. Nem eu vou encontrá-lo quando chegar em casa amanhã no fim da tarde, ou no começo da noite. Nesta madrugada estarei indo pra bem longe da minha feliz cidade.
Eu já fui embora muitas vezes, e já vi irem embora de mim. Alguns dizem que é pior pra quem fica, outros concordam comigo que é pior pra quem vai. Pra mim, ir embora significa deixar pra trás muitas coisas de que se gosta. Ninguém sabe, mas sempre que eu vou embora, tento me assegurar de que estou levando mais saudades do que deixando. Assim, se algo me acontecer, não ficarei com o remorso de ter deixando alguém sofrendo por mim: assumo a responsabilidade de levar as saudades mais dolorosas e as melhores lembranças.
Não importa se se vai ou se fica. Ir embora significa deixar um mundo pra trás. Não porque se quer, muitas vezes porque é o que tem que ser feito. Ir embora é sempre uma despedida. E eu detesto despedidas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Se eu sêsse



Se eu sêsse um mês, eu seria: Janeiro
Se eu sêsse um dia da semana: Sábado
Se eu sêsse uma hora do dia: 6:00
Se eu sêsse um planeta ou astro: Urano
Se eu sêsse uma direção: Sul
Se eu sêsse um móvel: Poltrona
Se eu sêsse um líquido: Vodka
Se eu sêsse um pecado: Luxúria
Se eu sêsse uma pedra: Lápis lazúli
Se eu sêsse uma árvore: Goiabeira
Se eu sêsse uma fruta: Caju
Se eu sêsse uma flor: Rosa vermelha
Se eu sêsse um clima: Mediterrâneo
Se eu sêsse um instrumento musical: Berimbau
Se eu sêsse um elemento: Vento
Se eu sêsse uma cor: Azul
Se eu sêsse um bicho: Felino
Se eu sêsse um som: Sertanejo
Se eu sêsse uma música: Ninguém te ama como eu
Se eu sêsse um estilo musical: Romântico
Se eu sêsse um sentimento: Saudade
Se eu sêsse um livro: Em qualquer lugar do mundo
Se eu sêsse uma comida: X-Salada Bacon
Se eu sêsse um lugar: Paris
Se eu sêsse um gosto: Salgado
Se eu sêsse um cheiro: Meu perfume azul
Se eu sêsse uma palavra: Amém
Se eu sêsse um verbo: Sorrir
Se eu sêsse um objeto: Semi-luz
Se eu sêsse uma parte do corpo: Perna
Se eu sêsse uma expressão facial: Sorriso
Se eu sêsse um desenho animado: Looney Tunes
Se eu sêsse um filme: 007 contra Goldeneye
Se eu sêsse um número: 2
Se eu sêsse uma estação: Verão
Se eu sêsse uma frase: Tudo é muita coisa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eternamente jovem



Já aconteceu muito de um time de futebol dar muitas alegrias à sua torcida por 2, 3 anos em sequência, jogando bonito, com jogadores habilidosos e identificados com o clube, ganhando vários campeonatos, aplicando vitórias memoráveis sobre os rivais. Essa é, obviamente, uma fase temporária. Inevitavelmente os jogadores são vendidos, os técnicos vão pra outros clubes... Os torcedores até ficam mal acostumados com isso, têm a impressão de que essas alegrias vão durar pra sempre. Geralmente, depois de um fato desses - esses times campeões de tudo, jogando bonito, enxendo de alegrias - o que se tem é só um restolho do que já foram tempos bons: jogadores novos, até que bons, que porventura ganhem um campeonato fácil, mas não é a mesma coisa. Fica aquela sensação de ressaca. Na gíria do futebol, esse time da ressaca é chamado de Expressinho ou Expresso da Alegria.
Até quem não entende de futebol consegue entender essa alegoria. Antes de continuar pense sobre isso. Que imagens vêm na sua cabeça?
Eu tive a sorte de ter em minha vida momentos incríveis. Eu tive "jogadores" e "treinadores" em meu "clube" que me proporcionaram muitos anos de alegria, muitos "títulos", "campeonatos" e "goleadas no adversário". São as histórias que eu sempre conto, que sempre gosto de relembrar com quem esteve lá e com quem esteve comigo nos "expressinhos" depois...
Esse clima de ressaca, e eu diria que hoje até chamo de nostalgia, em boa parte é por causa desse "expressinho". É, porque não é aquele timaço de lotar estádios, da alegria dos jogos à noite. É um restinho ali de alegria, um raiozinho de sol que ainda passa pela fresta da porta fechada. Porta que nos separa do passado, que mantém tudo fechado, trancado e inacessível. Mas não é nem de longe o que eu costumava chamar de felicidade. Inclusive se você voltar nesses lugares que sempre ia, em que vocês sempre se encontravam, não vai encontrar quase nada no lugar: tem um muro pintado diferente, o dono do bar mudou, as árvores estão com a cor estranha...
Perceba que eu falo de "felicidade" sem medo de errar: por muito tempo defendi a ideia de que a felicidade fosse uma direção, um caminho, não um lugar. Precisei de uma certa maturidade, umas velas a mais no bolo, pra perceber que o caminho que eu trilhava com esses times (ou eles me carregavam) era a própria felicidade. Esses expressinhos são, na verdade, a gente saindo do rumo da felicidade. Cada um seguiu o caminho que daria no sol, o vento levou cada um pra um lado. E com você, comigo, não foi diferente: agora ficamos aqui, relembrando a felicidade, relembrando o expressinho... E, veja só, faço isso com um desconhecido, que nem esteve lá nos meus times, nas minhas comemorações... Só gente que viu a estrada levando pro lado errado, e o expressinho partindo rápido demais, cedo demais...
Perceba que em nenhum momento eu coloquei a culpa em ninguém. Nem em mim mesmo. É porque, enquanto tentava me convencer de que a felicidade era um caminho, e via meu sol se pondo e levando embora minhas lembranças, aprendi que, ao chegar o outono, as árvores perdem todas as folhas. E elas se vão não porque querem ir: mas porque é chegada a hora de ir.
Hoje eu sei que tudo aconteceu porque tinha que acontecer. Mesmo antes de chegar cada jogador, o final já estava escrito.
Com certeza virão outros jogadores, e outros técnicos, e outras torcidas. Talvez não façam campeonatos como antigamente, talvez não apliquem goleadas como antes. Talvez nem o mesmo campo esteja no seu lugar mais. O mais importante disso tudo é saber reconhecer quando isso acontecer e agarrar a oportunidade como aconteceu tantas vezes no passado. É importante entender que, se alguém não te ama como você gostaria que amasse, isso não significa que não te ame com tudo o que pode. O tempo não para pra ninguém: nem pra mim, nem pra você, nem prás árvores e suas folhas e nem pros outros envolvidos nas campanhas vitoriosas e seus expressos da alegria.
Eu sempre quis viver pra sempre jovem. Com a experiência dos anos, aprendi que isso se trata muito mais de uma questão de como levar a vida do que de verões em mim.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Saudade é o amor que fica



Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda a vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.
Dizem que a dor é quem ensina a gemer. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.
Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.
No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem como suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades.
Nós, médicos, somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além.
Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses.
Somos forçados a reconhecer nossos limites! Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional.
Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.
Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos. Hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.
Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação.
Ela entregava o bracinho à enfermeira, e com uma lágrima nos olhos dizia:
- Faça tia, é preciso para eu ficar boa.
Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. Meu anjo respondeu:
-Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que a morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama dos nossos pais, e, no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim).
- É isso mesmo, e então? - perguntei.
-Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:
- E o que a saudade significa para você, minha querida?
- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Um anjo passou por mim... Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra do que nos permitimos enxergar. Que geralmente absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci.
Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.
Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.
Obrigado, anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes.
Que bom que existe saudade!
O amor que ficou é eterno!!!

(Rogério Brandão - Médico Oncologista clínico RC Recife Boa Vista D4500 Cremepe 5758)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Veja você



- Você nunca quis ser de ninguém... E agora é o namorado de alguém...
- Me surpreendeu também...
- Acho que nunca vou entender. Quer dizer, não faz sentido.
- Só aconteceu.
- É, mas é isso que não entendo. O quê só aconteceu?
- Só acordei um dia e soube.
- Soube o quê?
- O que eu nunca tive certeza com você.

[Silêncio. Desilusão.]

- Sabe o que é uma droga? Perceber que tudo em que você acredita é mentira, é uma droga.
- O quê quer dizer?
- Sabe, destino, almas gêmeas... Amor verdadeiro e todos aqueles contos infantis... Besteira, você estava certo, eu deveria ter escutado.
- Não.
- Sim... E por que você está sorrindo?
- Bem, eu estava sentado num bar tomando um Black Label e ouvindo um blues... Uma jovem chega pra mim e me pergunta se pode pegar a cadeira ao lado... E agora ela é minha namorada.
- É, e daí?
- E daí que... E se eu... tivesse ido ao cinema? Ou tivesse ido em outro lugar? E se tivesse chegado 10 minutos mais tarde? Era... era pra ser. E eu só ficava pensando... “Ela estava certa.”
- Não...
- Sim, eu pensei... Apenas não era sobre mim que você estava certa... We were not meant to be...

[ 500 dias com ela ]
[ http://www.fotolog.com/natiti ]

domingo, 8 de agosto de 2010

aPAIxonado



- Cleber! Cleber!
- Ããã... - resmungou meu pai.
- Vai nascer! - falou minha mãe.
Eu não estava lá, aliás, estava, mas não estava ainda, mas consigo imaginar a cara do meu pai olhando prá minha mãe, sem entender muita coisa. E consigo imaginar o pânico da minha mãe quando foi ao banheiro e "o xixi não parou de sair", de acordo com as palavras dela. Mas ela, até hoje, entra em pânico por qualquer coisa...
Segundo relatos do meu pai, ele pegou a mala que estava pronta há um mês ao lado da cama, colocou minha mãe no Fusca branco, e saíram correndo da casa velha, na Rua Chile, número 1533, 2 quartos, sala, cozinha e banheiro, sobre a rua de terra da Vila América, no subúrbio de Votuporanga, muito longe de onde o progresso tinha parado na cidade, sob as estrelas do céu da noite de verão do dia 5 de janeiro de 1985.
Se conheço meu pai, ao chegar à Casa de Saúde Nossa Senhora Aparecida, na rua Sergipe, do outro lado da cidade, minha mãe já foi levada por um médico e ele não aquietou até saber...
Naquela época, a grana era muito, muito curta. Meu pai trabalhava em São Bernardo do Campo, na construção da montadora da Volkswagen, e ficava na casa da minha avó, mãe da minha mãe, lá em São Mateus, na Rua Manoel da Mata Sá, número 71, extrema zona leste de São Paulo. A grana era tão curta que anos depois, quando a situação melhorou e meu pai abriu seu escritório de engenharia em Votuporanga, ainda não tinha dinheiro pra comprar guaraná. E ele optou pelo hospital particular pra me ver nascer, que até hoje não é barato.
Ele sempre me fala de uma história que, naquela noite, depois de deixar minha mãe no hospital, ele foi espairecer e encontrou dois amigos da tia Adélia (minha tia-avó, tia dele) e ele comentou que eu estava pra nascer. Ambos levantaram da mesa, puseram a mão no bolso pra pegar a carteira falando "você deve ter sido pego de surpresa, pega essa grana pra ajudar". Ele agradeceu e recusou, disse que não era necessário.
Às 7:40 da manhã seguinte, ele ouviu: "é um menino".
Eu estava lá, mas não vi, mas imagino o sorriso que ele deve ter aberto. Extravasou a alegria ligando pra sua irmã, minha tia e, com toda a delicadeza que ele tem até hoje, referiu-se assim a mim e às filhas dela: "segura tua cabra que meu bode tá solto!!"
Alguns anos mais tarde, formado em engenharia civil, respondeu "é minha especialidade" quando o coordenador do curso de química o perguntou se ele sabia alguma coisa da disciplina. O gordinho estava crescendo em casa...
Depois, mais tarde, quando cobriu um professor que iria sair de licença, já quase encerrando o período, chegou para o diretor da escola e disse:
- Eu quero ficar.
- Cleber, você sabia que era tamporário...
- Eu sei, mas eu quero continuar aqui. O senhor não tem um jardim aqui? Eu sei carpir, eu sei plantar...
O diretor olhou pra ele... Pensou... E respondeu:
- Pode ir, Cleber, você vai continuar com a gente.
No ano seguinte ele voltou como professor e não mais saiu.

Eu já conheci gente incrível na vida. Já vi homens fazendo mil malabarismos na televisão. Já vi homens que ganham milhões, tenho amigos que nasceram em berço de ouro. Na minha adolescência, briguei muito com meu pai. Mas hoje é tudo diferente. Não tenho mais coragem de levantar a voz pra ele. Não tenho coragem de ter raiva, de ficar bravo, nada disso. Por mais que me dê motivo, por mais que seja estúpido comigo. Não tenho coragem. Nenhum homem, pra mim, tem uma história mais vitoriosa que a do meu pai. Ano passado, ele pagou o hospital, o mesmo em que eu nasci, quando torci o pé, e me levou na cadeira de rodas. Hoje já faz 8 anos que não o vejo numa sala de aula, mas também faz 25 anos que ele é meu professor de matemática. Hoje já faz 7 anos que eu o acordei e falei "não vai dar parabéns pro novo aluno da USP?". Hoje não moramos mais em rua de terra. Hoje eu estou onde estou, porque um dia ele segurou minhas asas. Hoje, graças a Deus e ao esforço dele, temos guaraná em casa em toda refeição.

Hoje, Cleber, mais do que parabéns, eu vim te dizer "obrigado". Pelo que o senhor é e pelo que sou quando estou com o senhor.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Como foi, como é



Naquele tempo, quando tudo era muito recente ainda, eu lembro de um período, o qual eu não consigo delimitar, em que eu não sabia se minhas tentativas de superar tudo estavam dando certo.
Lembro que eu vivia tentando superar logo, não pensar, não lembrar - mal sabia eu que esse tinha sido meu primeiro erro.
Eu lembro também que as pessoas viviam sugerindo que já deveria ter superado, viviam me falando que atitudes tomar, o que esperavam de mim, e eu vivia acreditando que eu não estava fazendo o suficiente, que já deveria ter superado.
Mas que coisa! Hoje eu sei que eu estava errado em dar tantos ouvidos a essas coisas. Eu tinha meu tempo, tinha meu jeito de fazer as coisas. Mesmo que não soubesse o que fazer, eu estava tentando! E, sinceramente, ninguém tinha nada a ver com isso. Se não vinha pra me ajudar, por que estava me cobrando?
Tá certo que naquela situação ninguém sabe o que fazer. A gente tenta. A gente arrisca. Por tentativa e erro vai vendo o que funciona e o quê não funciona. Vai tentando se adaptar às coisas que acontecem, tenta se esquivar. É assim mesmo.
Com muitas daquelas pessoas nem tenho contato mais, o que prova que essa minha irritação tem fundamentos. Se fossem realmente importantes, com algo a me acrescentar, teriam me ajudado, não é? Foi exatamente isso que eu preguei quando o fim me acometeu.
Aprendi. Aprendi com meus erros, com meus acertos, encontrei padrões, criei métodos... Documentei nesses textos tudo pelo que ia passando. Algumas vezes até com mais carga de emoção do que em ensinamentos de verdade... Mas essa era minha intenção. Primeiro, um lugar pra me aliviar. Descobri que poderia escrever pra me ajudar.
Depois, com o tempo, percebi que muita gente tinha histórias parecidas com a minha. E que minha imaginação poderia ajudar a aliviar algumas dores.
Hoje me sinto bem de saber que pude me ajudar, consegui, venci, superei, e que alguém se sente melhor depois que me lê.
Porém ainda não conquistei nada. O caminho está só no começo. Tem muito trabalho pela frente!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

De meu pai... de meus únicos amigos



Este é um texto de autoajuda. É uma adaptação de uma música antiga, Father and son, interpretada por Cat Stevens, que eu conheci muitos anos atrás. Já me serviu de ajuda muitas vezes, e é dedicada, como sempre, aos corações apertados.

Talvez essa não seja a hora de uma mudança radical. Eu sugiro que você se acalme. Fique tranquila. Você é muito jovem ainda. Esse é o problema. Tem muita coisa que você precisa aprender ainda... Encontre alguém pra você, dedique-se a ele. Pode ser que não dê certo de primeira, mas alguém como você não sai da vida sem se casar. Olhe pra mim. Eu estou velho. Mas estou feliz.
Talvez você nem acredite em mim, mas eu já fui como você é hoje. Já passei por todos esses problemas. Já tive todas essas dúvidas. Já tive todos esses medos. Eu sei que não é fácil manter a calma quando você descobre que tem alguma coisa acontecendo. Mas leve na boa, tenha o seu tempo. Olha só, você já conquistou tanta coisa... Tudo isso pode estar aqui amanhã, mas seus sonhos talvez não...
Como eu poderia te explicar? Toda vez que eu tento, a conversa é sempre a mesma. A história se repete. Fui assim com meu pai, e agora você o é comigo. Toda vez que eu tento falar, tenho que parar pra ouvir. Então é isso. Preciso ir.
É que você é muito jovem, tem muita coisa por que passar ainda...
Tantas vezes eu chorei, sozinho, sem compartilhar com ninguém meus problemas, minhas dores... Guardando só pra mim tudo o que eu sabia... Foi difícil, mas hoje eu sei que é mais difícil ainda ignorar isso. Se as outras pessoas estivessem certas, eu até entenderia. Mas elas só conhecem a si mesmas, não a mim. Eu me conheço e sei o que é melhor pra mim. Não elas.
Enfim, é isso. Preciso ir.

Se cuida.
De quem sempre vai te amar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A olho nu



Posso te falar do medo, da angústia, da incerteza. Posso te descrever as reações ao fim de uma história, ao fim da vida. Posso até te ajudar a passar sobre pontes frágeis. Mas não posso te fazer entender...
Posso te jurar amor eterno, posso prometer amizade e apoio pela vida inteira. Posso até te ensinar uma coisa ou outra do que aprendi até hoje. Mas você nunca vai entender...
Posso te mostrar uma foto do antes e uma do depois, pra você ver como eu amadureci. E posso te mostrar uma foto do depois e uma do depois do depois, pra você ver como eu envelheci. Mesmo assim eu não conseguiria me fazer entender...
Posso te contar as histórias que ouvi ao pé do ouvido, mas elas não vão te significar nada. Posso te contar as conversas na varanda na noite de sábado, mas elas não vão transmitir nenhuma emoção. Posso te revelar alguns segredos, posso te mostrar o que está na sua cara o tempo todo e você não percebe. Mas você nunca vai conseguir enxergar...
Posso te ensinar a evitar a saudade, evitar a dor, a aliviar uma dor. Posso te mostrar os atalhos, a forma como reagir diante um fim inesperado. Mas você nunca vai aprender...
Posso te contar a minha própria história. Posso ouvir a sua. Posso te falar de destinos, de imprevisibilidades, de ampulhetas, de tempos idos e do que esperar do futuro. Mas você nunca vai chegar...
Posso te dizer como vão ser os primeiros 9 meses do seu relacionamento, e os 9 seguintes. Posso te dizer que tipo de problemas terão, qual a forma de evitá-los, como agir quando os 18 primeiros meses passarem... Mas você nunca vai acreditar...
Posso te falar da minha infância, dos problemas que tive, das incertezas, posso te descrever minha adolescência, posso te falar dos amigos que se foram, posso te falar nome e sobrenome de quase todo mundo que passou pela minha vida, apelidos que tinham, ano em que nos conhecemos, ano em que perdemos o contato, posso te dar a escalação completa de todos os meus times de futebol, do Palmeiras de 99. Mas você nunca vai lembrar...
Posso colocar nossa história num livro, nossa alegria numa poesia e nossa tristeza num pano de fundo. Posso até te escrever uma carta contando como tem sido minha vida depois de tudo isso, mas você nunca vai ler...
Eu posso imitar sua voz, copiar seu jeito, repetir suas manias. Posso desenhar seus olhos, seu sorriso, suas pernas. Posso aprender a dançar como você, a cantar como seus cantores preferidos cantam, a escrever como você gosta de ler. Mas você nunca vai ver...
Posso escrever seu nome em todo lugar. Posso criar composições e composições pra você, posso colocar a sua foto nos outdoors mais vistos. Posso fazer uma música de sucesso pra você, posso colocar uma reportagem sobre você na TV, mas você nunca vai reparar...
Se você parar pra analisar com mais atenção, vai ver que eu já fiz tudo isso e apaguei as provas. E você nem percebeu.