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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dualidade



Ter você pra mim é mais do que poder te encontrar quando eu quiser, poder te abraçar, poder olhar nos seus olhos. É mais do que ouvir sua voz, sentir seu cheiro e assistir alguma besteira junto.
Ter finalmente te encontrado é mais do que a sua personificação, é mais do que encontrar na minha frente aquelas palavras dos comentários. É mais até do que reconhecer em você o mesmo sorriso das fotos.
Ouvir sua voz e sentir sua risada foi algo que me fez bem por dentro. Mesmo aqui, nessa cidade lotada de gente. Eu não contei quantas pessoas passaram perto de nós, você contou? Aliás, eu nem lembro de alguém ter passado por nós. Nem enquanto caminhávamos pela Paulista, dentro do metrô...
Muito tempo se passou (quanto tempo? 1 ano? 10?) e quanta coisa mudou! Mudou, também, nesse tempo. Te vi chegando, te vi indo embora... Te vi chegando de novo, e indo embora de novo... E te vi chegando de novo... Até o dia que era minha vez de ir embora. Sinceramente não sei o que estava passando na sua cabeça naquela hora, enquanto eu explicava os motivos de ir embora. Esperava que você pelo menos entendesse. Nos dias anteriores, quando pensava como te falaria isso, imaginava uma defensividade de sua parte. Acredite, o que eu não esperava era te encontrar tão indecifrável assim.
Talvez se tivesse analisado melhor poderia até ter previsto um movimento ou outro seu. Mas o que mais me surpreendeu é que o anúncio de uma despedida foi o começo de tudo.
Mesmo com a incerteza do depois, que sempre me acompanhou, por não saber o que aquilo significava, se era você voltando mesmo, se era passageiro, se ia ficar ou não, não me importei. Mais importante pra mim era que você soubesse o que eu pensava e o que eu sentia. Por toda a nossa história, por tudo o que você significa pra mim, achei que seria justo que você soubesse de toda a verdade pela minha boca.
Desculpe-me se esse meu jeito não te agrada. Eu sou das antigas. Nasci no interior, numa rua de terra. Andei descalço entre galinhas e vacas. Vi estrelas cadentes e conversei na varanda ouvindo os grilhos e as ovelhas. O meu jeito é esse, gosto de olhar nos olhos, gosto de encontrar pessoalmente, gosto de mandar flores... Esse negócio de internet e computador é muito novo pra mim. Acho muito frio falar com as pessoas pela tela. Serve pra aproximar as pessoas, pra ler bons textos românticos, mas nada substitui o contato humano.
E veja você que desde então tenho vivido essa dualidade: por um lado, quero te guardar só pra mim, numa caixinha pequena, secreta, fechada, pra ninguém te roubar mais de mim, e pra você não fugir mais também; e por outro quero gritar aos sete ventos o que encontrei, quero te mostrar, quero sair por aí com você.

I wanna be daylight in your eyes
I wanna be sunlight only warmer
I wanna be daylight in your eyes
I wanna be love only stronger
I wanna be daylight

Dessa vez, mais que das outras, ainda estou aqui no mesmo lugar. Ainda sou o mesmo. Se veio pra juntar nossos caminhos, seja muito benvinda de volta à minha vida.
Com você eu posso ser eu mesmo sem medo, sem vergonha. Não preciso ter medo de errar, porque sei que você me conhece, sabe que erro, sabe dos meus defeitos. E eu preciso de você pra me corrigir, porque em você eu confio. E isso é tão raro pra mim...
Por isso, vista seu melhor sorriso e venha me encontrar. Sem pensar em mais nada, sem medo, sem defesas. Eu estive aqui te esperando esse tempo todo. Quem mais você acha que faria isso por você?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Almas perfumadas



Minha mãe conseguiu enviar carinho por email. Este ela dedicou a mim, é de autoria de Ana Cláudia Saldanha Jácomo.

Sei que você não gosta dessas mensagens, mas, essa não é daquelas que recebi e repassei.
Li esse texto, me identifiquei, porque quando você está perto de mim é assim que sinto tudo ao meu redor!
Besos



"Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.
Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza.
Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos da paz.
Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco, juntinho ao nosso lado.
E a gente ri grande, que nem menino arteiro."

terça-feira, 27 de julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Bem do jeito que você é



Eu não preciso te ter sempre ao meu lado pra te sentir. Eu nem sequer preciso de você pra ter saudade de você. Porque mesmo quando estou com você a saudade não me deixa. A diferença é que, à distância, você não está por perto pra me deixar tranquilo.
Eu não preciso de você pra me dizer que sou sistemático. Isso é algo que me acompanha. Não sei se isso te atrai ou te afasta. O importante pra mim é que posso ser eu mesmo com você.
Você não precisa ficar o tempo inteiro me falando pra ter juízo e não esquecer de você. Mas talvez eu esqueça do mundo se você não me lembrar, pensando por quê não falou...
Você não precisa ficar do meu lado o tempo inteiro me vigiando. Não sei se você percebeu, mas você está comigo o tempo inteiro. Por qual outra razão eu estaria escrevendo esse texto?
Você não precisa ficar na minha cabeça, consumindo o dia inteiro, todo dia, o meu pensamento inteiro. Como vou ter tempo pra inventar coisas pra você se você ficar me beijando e me abraçando sem parar?
Eu não preciso do seu perfume pra viver: eu preciso dele, sim, pra me desintoxicar da poluição do mundo. É por isso que você não pode ficar muito tempo longe de mim.
Esse lugar não precisa de você pra existir. Mas o que seria de mim se eu não tivesse um espaço pra extravasar essa emoção de compartilhar com você a sua existência? Então, talvez, de certa forma, isso aqui ainda exista só por causa de você.
E muito menos você precisa desse lugar pra existir. Mas de qual outra forma nossos caminhos se encontrariam se não fosse por esse? Então continuo apostando aqui pra ver se você volta aqui pra me ver.
Você não precisa nem existir: o meu pensamento mesmo te cria.
Mas, se por acaso, ocorra de você realmente existir, quando você chegar, venha sabendo que eu já estava te esperando. Exatamente do jeito que você é.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Depois das estrelas




Astros revelam que os olhos escondem uma dor. Estrelas cadentes cruzam o céu em busca de um amor. Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo se confunde em minha mente. Cartas perdidas nunca são entregues e matam corações lentamente. Magos prometem revelar o futuro, mas tudo que sabem é que o caminho é duro.
A cabala e o número sete muitas vezes se enganam por tentarem se infiltrar nos inquestionáveis corações que amam. Sugerem pela estrela-guia que a felicidade talvez seja fantasia. Isso é covardia. Sonhadores românticos não precisam de magia, são apaixonados noite e dia.
Some e se esconde sem me dar explicação. Diz ainda por cima que é a dona da razão. Se soubesse quão quente está esse verão, nunca abandonaria meu coração.
Repito os atos como num passe de mágica, iludo a plateia, invento cena trágica. As cortinas finalmente se fecham, e as pessoas, aplaudindo, chorando, sorrindo, só lamentam. Pedem bis, repetem o refrão. Todo mundo espera um alívio pro coração.
No céu estrelas desenham pentagramas, como se profetas do passado pudessem prever, prever que está certo o programa, o programa que te fará esquecer. Lançam no tabuleiro de Ouija sua sorte, mesmo que o melhor remédio seja a própria morte. Porque sofrem pessoas do sul ao norte, é o que desejam com uma dor desse porte.
Da alquimia antiga à Idade Média com a cantiga: de amor, de escárnio e de amiga, ninguém conseguiu definir em definitivo como pode o amor ser um verbo no imperativo. Porque impera na mente e no corpo dos seres. E não há quem, tendo experimentado, viva sem esses prazeres.
Enoque, Selá e Adão. Eliseu, Elias e Abraão. Moisés, Lot e Aarão. Zacarias, Jonas e Salomão. Noé, Ismael e Jó. José, Ezequiel e Ló. Maomé, Mahalalel e Jacó. Previram o amor e morreram só.
Panteão, solidão e os deuses gregos. Para Shakespeare não há segredo. É tudo tão claro na poesia de Poe, como se a vida do amante fosse sempre vazia quando ao seu lado não está a mulher, quando predizia:

Ah, distinctly I remember, it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow, sorrow for the lost Lenore,
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore.

O mundo fica um pouco mais leve com sua ausência. Parte de mim também morreu quando virou cinzas sua essência. E olhar como o seu nunca mais me ocorreu.

Sombras do vale, noites da montanha / Que minha alma cantou e amava tanto, Protegei o meu corpo abandonado, / E no silêncio derramai-lhe canto!

A duras penas, numa consulta a uma cigana, que me prometeu que seu retorno era carta certa, descobri que o céu também se engana. Tentei no Tarot e nas Runas, mas nada aliviou minha consciência da sua lembrança gravada na lua. Toda vez que olho pro céu me recordo do que me disseram todas as cartomantes: vocês tiveram uma história perpetuada nas onze dimensões, mas vocês não passaram de dois amantes. Pensei que pudessem estar erradas, e que os solstícios reaproximassem nossos corações. Para o meu azar, sobre duras ferraduras, ela nas asas do vento cavalgou e para nossos planos nunca mais voltou. Desde então desacredito em Orixás e no próprio acaso do destino. Porque aquela mulher, que fez cair por terra todas as crenças, foi meu desatino, minha doença. Sem cura minha amargura. E mesmo sem um ramo de alho-poró, sigo minha crença agora só: a de que aquela estrela brilhante é o brilho dos seus olhos cor de diamante.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ex-amizades duram pra sempre



No mundo tudo é realidade, nada é sonho! Quisera que muitas realidades fossem sonhos e que muitos sonhos fossem realidades. Quando o presente se tornar passado, e a nossa juventude se ver, talvez, crespada pelos ventos e tempestades da vida: há de reler estas linhas então se lembrará deste amigo que terá sempre no coração a sua amizade.
Quando eu estava na 1ª série, reconheci meu primeiro "melhor amigo": Willian. Ele morava perto de mim e, com frequência, íamos na casa um do outro. Isso porque, naquele tempo, não existia nada disso de internet. As pessoas se conheciam mesmo, não "adicionavam umas as outras". Na nossa 3ª série ele saiu da escola, ou mudou de cidade, e não mais nos falamos. Mas pouco antes, reconheci o Paolo, que também morava perto de casa, e andávamos os 3 sempre juntos. Este último também saiu da escola, mas uns dois anos depois, e também perdemos o contato.
Então reconheci Luís Eduardo. Esse morava longe de casa. Apesar de não acreditar em destino, acho que algumas coisas são feitas para acontecerem. Em 1996 minha bisavó nos deixou. A propriedade em que ela morava, um restolho do que já foi um sítio com cinco quilômetros de comprimento, em meio à cidade que já invadia tudo, foi vendida e, meus avós paternos, que moravam na mesma propriedade, mudaram-se a 1 quarteirão da Igreja Santa Luzia, bem em frente à casa onde mora (até hoje) os avós do Dú, como era chamado o Luís Eduardo.
À partir daquele ano sempre chamava os moleques que moravam ali em volta (Átila, Diego, Edinho e o próprio Dú, quando estava ali) para jogar bola no fundo da casa da minha vó, que tinha um gramado.
Um dia apareceu na casa da Dona Esmeralda, vó do Dú, um Gol azul de onde saiu a Isabela, prima dele, que morava em Rio Preto. Ela foi minha primeira paquerinha. Nunca chegamos a dar nenhum beijo sequer, mas trocamos muitas cartas que faziam as borboletas no meu estômago se agitarem bastante. Em 1997 o Dú também mudou de escola. Mantivemos um pouco do contato, sempre que ele ia praqueles lados. Nesse ano eu reconheci o Dênis, a amizade mais estranha que eu já tive. No mesmo ano, por algum motivo que não sei qual até hoje, decidi que não queria mais ser amigo dele e veio uma fase bem turbulenta da minha vida. Com essa minha escolha, vários outros acabaram brigando comigo também.
Em 1998, reconheci o Batata, filho da Dona Adair, coordenadora da escola em que estudávamos. Ele esteve na minha classe desde o Pré I, em 1989. Porém, como diz a palavra que estou usando, eu o reconheci somente naquele ano. Antes do meio do ano, ele me disse que estaria mudando pra Rio Preto com a família. Acabou ficando o segundo semestre ainda em Votuporanga, com a Dona Adair e, no fim do ano, mudou-se em definitivo. No mesmo período em que soube disso, a Isabela mandou a última carta dela, "terminando" nosso caso, se é que existia um caso.
Nesse ano, também, entrou na minha classe o Hery, que já conhecia o Matheus, que eu reconheci naquele ano ainda.
Quando eu cheguei à 8ª série, na minha classe, entre muitas caras novas, estava também a Camila, que havia chegado no ano anterior à cidade. Lembro que, sem nem saber seu nome, ela chegou em mim, perguntou se eu era o Bruno, primo da Roberta, respondi que sim, e ela não disse mais nada.
Ainda nesse ano, eu mantinha minha amizade com o Batata. Ele estudava, em Rio Preto, no colégio Santo André, na mesma classe de, pasme, Isabela.
Naquele ano, 1999, eu participei de um encontro de jovens da Igreja Santa Luzia, em Votuporanga, chamado EJUSAL. Era o 2º. Minha prima havia feito o 24º EJUSA em Rio Preto, me deu o convite para o 1º EJUSAL, mas eu não quis fazer, e eu acabei aceitando depois.
Foi em Outubro de 1999 o EJUSAL. Fizemos um juramento de não contar nada do que acontecera lá, então tudo o que posso dizer é que, numa certa hora, recebemos mensagens dos amigos e familiares. Havia uma da Camila que, depois fiquei sabendo, havia feito o 1º encontro, conhecido minha prima lá, e ambas trabalharam no meu. Recebi também uma mensagem do Matheus, que me fez ficar com os olhos marejados na hora. Tenho até hoje guardada, e decorei na primeira vez que li. E é com ela que abri este texto sobre amizade. Em 2000 ainda trabalhei no 1º EJUSA, um encontro nos mesmos moldes, mas da Igreja Matriz.
Ainda em 99, reconheci o Edson, que estava na minha classe desde 1996.
Camila, eu e Edson andávamos sempre juntos. Somente viemos a nos afastar no ano seguinte, em 2000, quando ela começou a namorar o Dênis, aquele mesmo de 97. Apesar desse afastamento entre mim e ela, eu e ele voltamos a nos falar, por causa de uma chantagem dela com ele. Ela também namorou com o Matheus (pelo jeito só comigo que não) e, prá minha sorte, como nunca havia acontecido, eu tinha mais de um "melhor amigo" comigo. E a Camila mudou de cidade no fim daquele ano.
Apesar da convivência, Edson e eu, e Matheus e eu, não era a mesma coisa em 2000 mais. Minha amizade com o Batata que era fortalecida.
Foi nesse ano que minha mãe começou a dar aula na Dinâmica. Foi assim que fui presenteado com a maioria dos amigos que tive em anos: Franciane, Nayara, Elaine, Bruno, Mamito, Sabrina, Celso, Fabiana... E eu e Batata, que só tínhamos um ao outro, ganhamos muitas e excelentes companhias.
Nesse ano, depois já de 10 anos estudando na mesma escola, queria a todo custo sair de lá. Não gostava de quase ninguém, salvando só o Edson, o Matheus, o Hery, o Fransak. Queria ir prá Dinâmica, onde estavam todos que eu gostava e gostavam de mim. Pedido indeferido. Amarguei ainda mais 3 anos ali.
No fim de 2000 conheci muita gente do Anglo: Santini, Ceará, Rômulo, Renan, Pescaldo, Made, Mota, Massa, Bordi (que era da minha classe desde a segunda série, mas também saiu da escola)... Mas era só o começo ainda... Mais ou menos no meio de 2001, aquela turma da Dinâmica se dissipou por completo. Eu ainda fiquei num subgrupo com Elaine, Celso, Fabiana, Sabrina e o Batata sempre comigo. Mas acabamos nos afastando logo. Batata e eu nos aproximamos daquela turma do Anglo, que tinha ainda Mariana Marin, Luiza, Iara, Mariana, Natália... criamos nosso canal no mIrc (#paperclip) e, dentre as muitas coisas que fizemos, tivemos um bloco de carnaval por dois anos (2002 com 30 pessoas e 150 em 2003) e um time de futebol, que participou de dois campeonatos e, em 2003, a maioria de nós montou o X-Team, que durou até 2004, e em 2006 fez seu último jogo.
Em 2003, Batata e eu nos reaproximamos de Elaine, Sabrina, Fabiana, Celso..., mas por pouco tempo.
O último envolvimento que tivemos com alguma turma foi de 2004 em diante, apesar de muito distante ainda, com Santini, Iara, Made, Natália, Pescaldo e Mariana.
Hoje mal nos encontramos todos nós. Uns meses atrás reencontramos a maioria, e jogamos bola como nos velhos tempos. Bom, não como nos velhos tempos.

Uso a palavra reconheci porque um poeta sabiamente disse que nós não fazemos amigos: nós os reconhecemos. Durante muito tempo, eu tive só um bom amigo. Reconhecia outro quando o perdia. Depois de um tempo, comecei a colecioná-los. Apesar do prazer de tê-los tido em minha vida, também tive o desprazer de ver quase todos indo embora. Poucas coisas apertam tanto meu coração quanto isso.
Propositalmente não citei os amigos de 2006 até hoje, pois ainda os tenho. Eles já sabem como gosto deles, e também terão suas menções aqui se um dia se forem.
Propositalmente não citei meus pais, pois são uma categoria diferente de amizade.

Apesar da distância, tanto física quanto temporal, sou muito grato a Deus por ter colocado no meu caminho essas pessoas, e de cá, ainda digo: feliz dia do amigo, meus ex-amigos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Autoanálise



Quando me falta imaginação, eu fico quieto só pensando e analisando. Nem me pergunte o quê. Eu mesmo não saberia definir. Não tem nada pronto ou programado. Às vezes a própria falta de pensamento me faz ficar quieto e olhar pro nada. É nessa hora que costumo colocar os pensamentos em ordem, analisar erros e acertos, onde posso melhorar, onde falhei...
Claro que não fico me chibatando pelos erros. Errar, todos erramos. Sempre falo que quando há vontade de corrigi-los, os erros não são um grande problema.
Dizem que conselhos é o que os mais velhos dão quando não têm mais condições de errar, né? Não sou velho, mas eu gosto muito de aconselhar. Acho que até por isso muitos dos textos escritos nesse blog tenham esse fundo de autoajuda. Na verdade, esse blog começou como um desabafo que logo se transformou em conselhos pra outras pessoas que viessem a passar pelo que passei. É mais fácil, não, quando alguém já passou pelas dificuldades que você está passando e tem a palavra certa pra você? Eu sentia uma dificuldade muito grande em encontrar gente que soubesse exatamente o que eu estava passando, que soubesse o jeito de falar comigo, a hora certa de ouvir, de falar, e o jeito que eu queria que falasse. Às vezes a gente não quer ninguém dando palpite, a gente só quer xingar sem pudores e que a outra pessoa nos dê razão.
Por muitas vezes você, que me lê, ou seria melhor "você, blog, que não me ouve mas me aceita indiferente"?,  foi essa pessoa a me ouvir.
Até ouvi uns absurdos algumas vezes. "Por que você não vira psicólogo?". Sei lá, talvez porque eu não confie em psicólogos? Tenho amigos psicólogos, e eles sabem que eu não confio nessa profissão. Confio, sim, neles. Infelizmente pela ética não podem me atender... Eu poderia, sim, dar uma lida no que os grandes nomes fizeram, em suas obras, suas descobertas, mas me recusaria a aplicar acefalicamente esse conhecimento a torto e a direito nas pessoas. Não, isso não. O que eu gosto mesmo é de ouvir. Pois, afinal, era isso a primeira coisa que eu esperava de quem me olhava, não? E, depois, se entendesse que coubesse uma opinião, a daria. Porém, a pessoa, mesmo que às vezes não esperando, não sei por quê, deveria saber que há o momento do tapa na cara e o momento do carinho. Não sou alguém que faz carinho em quem não mereça.
Gosto de pensar que faço as pessoas crescerem. Eu mesmo não gosto de "andar pro lado". Minha intenção é sempre evoluir. Custa-me aceitar e entender quando preciso dar um passo pra trás pra, em seguida, dar dois à frente. Momentaneamente fico incomodado, não consigo ver que é por pouco tempo. Sou crítico, sistemático, como dizem. Em alguns textos até expliquei por que sou assim. Aprendi, precisei, ser assim. Gosto de mim assim, acho que estou indo até bem. Porém, não tão bem quanto gostaria e deveria.
Minha escrita foi modificando, não sei nem dizer se foi evoluindo. Acho que porque não tive mais aqueles problemas do começo. Mas ainda gosto de voltar àquele jeito. Gosto de escrever daquela forma. Quem sabe um dia desses não consiga de novo?
É, esses foram os pensamentos de hoje. Obrigado por me ler.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

As canções que você fez pra mim



Você mal chegou e já se vai.
Eu não gostaria que você se fosse sem eu ter a chance de marcar pra você como você marcou pra mim.
Esta é a minha [única] tentativa.

Eu já conheci muita gente pela vida. Assim como muitas pessoas passaram por mim, eu também passei por elas. Não sei quanto tempo durei na memória delas, mas posso garantir que elas estão todas eternizadas na minha.
Eu não tenho na memória quando você nasceu na minha vida. Eu lembro, sim, quando você passou a ser tão importante.
Era uma noite comum. Temperatura amena. Não era data especial. Não era dia de festa. Não tinha nada na cidade. Mas, naquela noite, aquela data virou data especial.
Assim como os corações, as histórias não são iguais. Enquanto escrevíamos a nossa, nem lembrava que meu coração sangrava de dor por conta de outras histórias, estas fracassadas.
Você se vai, mas gostaria que fosse sabendo que vai ficar aqui comigo por muito, muito tempo ainda. Não sei se você vai me levar consigo, mas pode ter certeza que, na minha memória, ainda existirá eu e você.
Preciso confessar que, quando você me apareceu, eu não estava planejando uma história assim. Eu sequer planejava alguma coisa. Você foi a minha melhor falta de planejamento. E o mais difícil esquecimento.
Talvez a pior mentira que contei pra você tenha sido não chorar na sua frente. Passei a imagem de que aquela seria minha reação no depois. Talvez se você soubesse qual seria de verdade, tivesse mudado de ideia.
Mas não cabe mais me lamentar pelo que aconteceu, já que nada irá mudar, mesmo. O que me resta é fazer o que tenho feito até agora: tentar sufocar essa saudade, amenizar a dor e aceitar que você foi um anjo que passou pela minha vida, me fez feliz, e teve que ir embora.
Eu guardava um perfume para ocasiões especiais. Usei em toda oportunidade que tive. Hoje ele acabou, e eu vi que valeu a pena cada ocasião em que usei.
Se eu pudesse fazer um filme contando a minha história, a trilha sonora seria inteira composta pelas canções que você fez pra mim.


Delírio



Eu tento todo dia não pensar em você, mas o próprio esforço pra não lembrar, de alguma forma, já é a prova de que não consigo.
Escrevo pois é a única opção que me sobra. Escrever é um ato solitário. E sob a prata dessa lua, até desenhar essas letras fica difícil.
Daqui de cima toda rua é triste, toda poça é menos salgada que minhas lágrimas e toda gente fica deselegante nesse frio.
Quisera manter a ilusão de que o tempo cura mágoas, e que uma explosão arrebentasse de vez meu peito. Assim, pelo menos, o mundo perderia mais um grito de dor.
Nada sobrou pra mim, porque meu mundo era você. Agora tanto faz continuar aqui ou ir embora, se não tenho você pra lamentar toda vez que ficávamos em silêncio sem saber o que dizer.
Nada sou sem sua alma tocando os vinis da minha história.
As horas já não caminham mais: eu que passo por elas. O tempo é meu inimigo e cada número tem seu próprio significado. Cada um deles tem um valor diferente, ressonante de uma data importante pra nós.
O mais engraçado disso tudo é que sei que não serei ouvido. Essas palavras vão se perder, enterradas ou esquecidas, provavelmente não repassadas. Soterradas junto com meu amor-próprio, do qual quase nada sobrou. Talvez você, aí onde quer que esteja, também alimente uma esperança de me encontrar um dia. Mas, assim como eu, também não sabe como.
Eu agora tenho em minhas mãos o porta-retrato que você me deu. Mas ele está vazio. Acho que bebi muito ontem e acabei queimando a foto que tinha aqui. Ou talvez você tenha levado embora naquele dia em que foi embora.
Nem a foto, nem o dia, nem você vou conseguir recuperar. É só uma miragem refletida no vidro. Apesar de o meu rosto aparecer, não tem o seu no meu ombro.
Faço o que posso pra não cometer uma loucura. Uma nova loucura, eu diria, já que a primeira foi aceitar sua partida.
Cada vez que disco seu número, e recebo uma mensagem da caixa postal, é como se fosse um tapa na cara, como se dissesse "ela não existe".
Por mais real que tenha sido tudo o que vivemos, já faz tanto tempo que eu mesmo começo a acreditar que nada existiu de verdade. Foi tudo uma história que eu inventei e acabei acreditando nela. Se assim fosse, como explicar sua presença em todas as fotos que eu tenho?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O meu fim



26 horas atrás foi a última vez que abri os olhos depois de dormir.
30 horas atrás foi a última vez que consegui pregar os olhos pra dormir.
Faz 2 horas que estou lendo todas as suas cartas tentando descobrir desde quando ela não está mais comigo e eu não percebi.

"..foi uma sorte muito grande você ter aparecido..."
"...hoje eu já disse que adoro namorar você?..."
"...não consigo mais suportar essa saudade..."

6 porres atrás foi a última vez que consegui vê-la na minha frente, real, sem ser por essas imagens criadas pela minha saudade.
2 luas atrás eu ainda acreditava que ela pudesse ter se enganado e não ir embora.
62 lenços de papel não haviam sido desperdiçados antes de ouvir o que ela tinha pra me dizer.

"...acho que você não consegue imaginar a falta que me faz..."
"...não sei o que poderia ter sido de mim se..."
"...porque toda vez que você vai, é como se parte de mim fosse junto..."

2482 lágrimas poderiam ter sido evitadas se ela tivesse parado pra me ouvir, invés de tomar a decisão sozinha.
28 ligações eu fiz nessas 26 horas, 16 delas só pra ouvir a voz dela, 8 que eu desliguei porque as lágrimas não deixaram as palavras sairem, e as 4 últimas recusadas.
3856 palavras de saudade formando cartas e mais cartas que ela nunca vai receber.

"...é que esse medo de te perder tem me tirado o sono..."
"...já faz 5 minutos que você se foi, e parece que nunca mais vou te ver..."
"...o meu coração bate fraquinho, ele precisa da alegria que só o seu pode dar..."

152 quilômetros por hora foi o que o ponteiro marcou enquanto eu fugia dessas sombras.
4213 fotos nossas passaram na minha frente enquanto o mundo desaparecia pelo retrovisor.
Todos os anos que dediquei a ela me fizeram voltar antes que fosse muito tarde.

"...nunca existiu e nunca existirá mais ninguém, sempre foi só você..."
"...meu amor, você já é o amor da minha vida..."
"...se não for você, não será mais ninguém..."

34 longos segundos esperei até que ela atendecesse a campainha e viesse me receber na porta de sua casa.
4 olhos me olharam dizendo que meu lugar já havia sido ocupado.
2 batidas e meia deu meu coração antes de parar.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Cipreste triste



Come away, come away, death,
  And in sad cypress let me laid;
Fly away, fly away, breath;
  I am slain by a fair cruel maid.
My shroud of white, stuck all with yew,
  O prepare it!
My part of death, no one so true
  Did share it.

Shakespeare

Eu te odeio. Odeio compulsivamente. Só a menção do seu nome já me faz apertar os dentes e rosnar pra quem me fez lembrar de você. Por que, eu pergunto, essa insistência em querer falar tanto em você?
É impressionante como tudo me faz ter raiva. Desde aquela maldita foto colada na porta até o último pensamento que não sai da cabeça quando vou dormir. Eu sinceramente não sei nem explicar como isso acontece. Já faz tanto tempo que eu nem te vejo, que eu não sei se você está gorda ou se pintou o cabelo.
Essa sua historinha de amor-próprio não me convence. Eu te conheço a fundo, e sei que, por trás da sua partida, existe um motivo maior. Não mais nobre, só maior. Não entendo não me dizer a verdade. Sempre fomos francos um com o outro, não é? Aí, num dia, sem preparar nem nada, você floreia meias verdades e tenta me fazer acreditar que está sendo verdadeira comigo. Eu, sem direito a reação, o que posso fazer? Nada, né? Era isso que você queria, não é? Uma morte rápida, sem chance de defesa. Ah, mas você não conseguiu. Não desse lado. E esse é um dos motivos por quê eu nutro este sentimento por você. Psicólogos já me disseram que a linha que separa ódio de amor é muito fina. Não confio neles. Não acho que sejam tão bons assim. Não acho que consigam por mim algo que eu mesmo não conseguiria sozinho. Mas nesse ponto tenho que concordar. Você não sabe, você não tem ideia, do amor que eu tinha por você. E imagino que você também não consiga calcular a raiva que sinto agora.
Sabe que... Quando eu finalmente voltei a mim, quando recuperei a consciência, eu estava livre de sentimentos. Não senti nenhuma forma de saudade, de raiva, de dor, de amor, de alegria. Nada, nada. Tudo o que percebi foi um vazio imenso dentro de mim. Um vazio que eu não entendi. Parecia que tinha tirado de mim minha capacidade de percepção e de raciocínio. Era como se você estivesse dentro de mim, mas ao mesmo tempo não estivesse. Você se foi tão cedo, tão rápido... Dois dias depois eu ainda fazia o mesmo caminho até sua casa, sem perceber, por causa desse vazio, que não me deixava tomar conta da minha própria vida. Quando percebi o erro, voltei pra casa e percebi quantas rotinas eu ainda mantinha como se você ainda existisse. É tudo tão irreal...
Eu queria toda noite poder tirar de mim isso, mas toda manhã é mais um dia sem você, então te odeio mais ainda.

Conto inglês





Esta é uma história que aconteceu no condado de Southamptonshire, no sudeste da Inglaterra, hoje chamado de Hampshire pelos mais novos.
O ano era 1946. O país estava apenas tentando se recuperar da guerra. Meu pai tinha uma pequena banca de peixe na cidade de Southampton. Que era, na verdade, mais uma vila do que uma cidade mesmo. Poucos habitantes, todo mundo conhecia todo mundo... Eu era muito novo pra ir prá guerra, e meu pai muito velho. Sorte. Nossa família permaneceu intacta mesmo com todos aqueles ataques. Eu ficava na banca com meu pai, e tomava conta sozinho quando ele saía pra negociar no porto. Assim, eu conheci quase todo mundo da região, e até quando comprava e o quê compravam.
Continuando na A27 road, que, à época, era só uma estradinha de terra em direção ao interior da ilha, no alto do morro tinha a casa de Mrs. Webley, viúva, morava sozinha. Na parede branca, balançava uma plaquinha tão antiga que quase não se podia ler o nome da propriedade, Westquay. Mrs. Webley, apesar da impressão que o letreiro passava, era uma senhorinha simpática, organizada e limpa, tão diferente da maiora das senhoras que viviam por aquela região. Mrs. Barkle, por exemplo, era a própria imagem da rabugice. Nenhum peixe nunca estava fresco o suficiente, e vivia reclamando do excesso de estrangeiros trabalhando nos portos.
Mais ou menos quando começou a primavera de 1947, Mrs. Webley recebeu em sua casa uma moça que eu nunca havia visto por aqueles lados. Na mesma manhã em que chegou no sábado, como de costume ela veio à banca.
- Bom dia, jovem. Como está o salmão?
Era a mesma pergunta sempre. Mas com tanta cordialidade, era impossível responder de outra forma.
- Tão fresco quanto esse dia, Mrs. Webley. Três dos pequenos?
- Oh, me desculpe. Essa aqui é Lynn, minha sobrinha-neta. Ela é irlandesa, vai passar alguns dias comigo.
Era impossível não notar. Pele clara e olhos verdes, cabelo até o ombro e um casaco de tweed, provavelmente presente da tia-avó. Não havia outro lugar no mundo, senão na Inglaterra, em que se usasse aquela vestimenta. Sempre achei que a Irlanda fosse mais quente que aquela região, mas provavelmente ela não esperava o frio que vinha da costa.
Enquanto Mrs. Webley continuava a falar como queria os peixes, eu admirava Lynn sem disfarçar. Quando terminou de explicar, a senhora me olhou sorrindo, ajeitou os óculos grandes em cima do nariz como que esperando alguma coisa.
- Oh, desculpe-me, Mrs. Webley. Como quer os peixes?
Ela sorriu novamente, entendeu rapidamente o motivo da minha distração e disse:
- Por que você não leva dois do seu melhor salmão até minha casa para o jantar?
- Com todo o prazer, Mrs. Webley. Peço desculpas pelo incidente.
- Não há que se desculpar, meu jovem. Lynn é mesmo uma moça muito linda.
Meu sorriso sumiu do rosto, que enrubreceu e me deixou sem palavras. Lynn e a tia-avó saíram de lá. A primeira com o cabelo esvoaçante, ao som do meu pai gritando meu nome para ajudá-lo com as caixas.

Às 5.30 daquele dia eu já estava com a minha melhor roupa à porta da Westquay e com os peixes já descamados. Mrs. Webley veio me atender.
- Entre, meu jovem, entre. Lynn está no quarto terminando de se vestir. Deixe-me ver esses salmões. Ora, são lindos, não? E cheiram bem. Ótima escolha! Ah, claro, dê-me seu casaco. Sente-se. Estou terminando o jantar. Lynn já vem.
Enquanto a senhora sumia pela porta da cozinha, ouvi passos no andar de cima. Talvez não se demorasse a descer.
Alguns minutos depois, Lynn desceu, justamente quando Mrs. Webley chamava para a mesa. Não conversei direito com a moça. Apenas trocamos alguns olhares. Quem mais falava era a senhora, e Lynn parecia mesmo muito tímida. Retribuía alguns dos meus sorrisos, e logo abaixava a cabeça quando percebia que o rosto ficaria vermelho.
Nada de muito especial aconteceu naquela noite. Por volta das 8 voltei pra casa, e pude ver as luzes da Westquay se apagando pouco depois.

No dia seguinte, quando as mulheres daquela casa saíram para uma caminhada matinal, pude vê-las tomando o caminho rumo ao norte, onde campos de grama baixa se estendiam por toda a planície, o que permitia ver quase tudo à volta: a maioria das casas, o rio invadindo a ilha... Lynn nem sequer chegou perto da banca o dia todo. Nem sequer olhou em nossa direção.
O terceiro dia não foi muito diferente. Elas desceram até a beira do mar, e caminharam pela areia com os sapatos nas mãos e erguendo as saias um pouco acima do tornozelo. Corri até lá, ao fim do dia, mas também não falei uma palavra com a garota. Mrs. Webley falava muito sobre a areia, o mar, o céu... não quis interrompê-la.
No quarto dia Lynn caminhou sozinha, colhendo flores, pedrinhas e admirando a vista.
No dia seguinte eu a vi ao longe entrando e saindo da horta próxima a Westquay. E, novamente, não teve curiosidade de saber se eu continuava olhando-a de longe.
No sexto dia, vi Lynn se despedindo de Mrs. Webley, e uma pequena mala de viagem na mão.
"Não pode ser", pensei. Eu tenho sonhado com essa moça todos esses dias e ela sequer vem se despedir de mim?
Muitos anos se passaram até que eu pudesse esquecer Lynn. Era estranho. Mal nos falamos e eu tinha uma saudade tão grande por ela... Claro que não falei nada pra ninguém sobre isso.
Mrs. Webley veio a falecer oito anos após esse ocorrido, levando consigo minha única chance de reencontrar Lynn. Pelo menos era o que eu pensava.
No ano seguinte se mudou para o povoado uma jovem mais ou menos da minha idade, Elizabeth. Acabamos nos casando em 1954.
Westquay nunca foi colocada em leilão. Uma de suas irmãs vinha limpá-la de tempos em tempos. Eu acabei me mudando pra Londres com Elizabeth, mas sempre voltava para Southampton. Em uma dessas viagens, fui sozinho, e por coincidência a irmã de Mrs. Webley estava lá, fazendo a faxina em Westquay. Fui ter com ela e perguntar sobre Lynn. Ela deu um sorriso tímido e respondeu:
- Lynn nasceu com uma doença degenerativa. Quando o senhor a conheceu, ela tinha somente 30% da visão. Os médicos tentaram medicá-la como puderam, mas tudo que conseguiram foi adiar o inevitável. Lynn faleceu poucos meses antes de minha irmã. Ao menos ela teve a chance de pisar o pé descalço no mar, como sempre sonhava...

Na volta a Londres, naquela noite, no último trem, fui pensando como algumas pessoas podem modificar tanto nossa vida sem termos quase contato direto. Quando Lynn me olhava, ela mal conseguia me enxergar, talvez visse só um borrão. Aqueles olhos verdes, apesar de brilhantes e sonhadores, me olhavam sem saber por quê. Talvez por isso não olhasse prá banca quando saía sozinha: porque não sabia pra onde olhar. E quando se perdia nos campos gramados, talvez quisesse somente sentir o cheiro de grama e o vento que vem do mar.
Meu filho nasceu em 1960. Infelizmente foi tarde demais para conhecer seus avós paternos ou alguma moradora da casinha branca à beira da A27. Mas assim que aprendeu a andar, levei-o para conhecer as areias de Southamptonshire. Quando a água bateu nele, ele abriu a boca sorrindo e seus olhos verdes brilharam ao sol da primavera da velha Inglaterra.

domingo, 11 de julho de 2010

Pouco a pouco



Quase ninguém sabe de você. Dos que sabem, sabem seu nome. Desses quase nenhum sabe como nossa história começou. Desses que se interessam por isso, nunca te viram. Nem em foto. Nas em que você aparece, não dá pra te ver. Conseguem ver seu rosto lindo numa pose genial. De lado, cabelo tapando quase tudo. E aquele sorriso que eu adoro. Na outra, só suas costas, e seu corpo magro que eu adoro abraçar.
Tudo isso tem um motivo. Quando você me apareceu, eu não sabia nada de você. Não sabia nem se era seu nome real aquele. Com cada comentário, via que, pelo menos, você se interessava pelo que eu escrevia. Talvez por compartilharmos os mesmos traços da estrada.
Suas fotos não ajudaram. Queria te encontrar pra saber quem era, mas se dependesse da imagem que eu tinha, iria a contragosto.
Pra minha sorte, surpresa e alegria você tem a mesma altura que eu. Um olhar interessante, atencioso, e um sorriso sincero e delicioso de ver. Até me dá vontade de sorrir junto.
Encantei-me pelo seu cheiro. Um aroma envolvente que até me fez esquecer de como aquela cidade é ruim.
Eu deixo perguntarem e respondo quase nada sobre você. E isso tem um motivo. Não é por não querer te assumir. Não é vergonha de você. Não é nada disso. É um motivo nobre.
Eu quero que todos te conheçam como eu te conheci, em doses homeopáticas, devagar, se encantando com uma coisa de cada vez. E assim se apaixonarem por você igual eu me apaixonei.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sua partida



Tchau, de novo. É a sei-lá-qual vez que nos despedimos em menos de dois anos. Cada vez que nos separamos teve um sabor amargo pra mim, mas cada vez teve uma amargura diferente. Teve a despedida de um encontro que nunca aconteceu, teve a despedida com cara de "volto logo". Teve uma com cara de "não sei se volto". E teve o encontro pra falar da última despedida. Essa pra valer.
Cada vez que você se foi, meu pensamento voava acompanhando cada passo seu, mesmo sem você perceber, só imaginando de longe onde estaria, com quem estaria, e por quê não estaria comigo. Cada degrau que rolava, cada estação que ficava pra trás, era um pedaço da minha própria vida que eu nunca mais recuperaria.
Assim também você me viu várias vezes indo embora. Com mais frequência que você, mas com menos peso e menos significado. Porém a noite acordado terminando numa despedida foi uma das mais quentes que tivemos, e a manhã seguinte, uma das mais frias. Mais quente que seu corpo com seu coração acelerado quase surtando naquela primeira noite. E mais fria do que sua mão quando anunciei que poderia ser a última vez.
Quantas vezes você fugiu das minhas mãos, e eu te mantinha no meu pensamento esperando o dia em que finalmente voltaria... E quantas vezes você me procurou na multidão, mesmo sabendo que eu não passava por aquela rua? Talvez a forma de idas e vindas da nossa vida tenha mostrado finalmente o que vai ser de nós dois. Que não sejam idas e vindas de incertezas, até porque nunca tivemos a tal fase da incerteza, pulamos direto pro passo seguinte. Mas que sejam idas e vindas da saudade, de aumentar a vontade de estar junto, de disparar o coração no encontro seguinte. Que sejam idas e vindas planejadas por nós. Que cada ida tenha uma volta associada, e que não exista nenhum olhar de saudade sem um "que bom que voltou, eu estava com saudade, sabia?" na volta.
Mesmo que eu me vá periodicamente, e tenha que amargar ver seus olhos vermelhos na partida, e os meus na volta, não se escrevem histórias iguais. Essa é a nossa. Com todos nossos detalhes, defeitos e com o nosso cheiro. Cheiro de quem esteve esperando muito tempo pra viver isso.
Por mais que existam essas idas e voltas, cada vez que você se foi, era como se minha alma tivesse saído de mim, me deixando a esperar ali, parado, durante tanto tempo, com o retorno de mim com a sua voz. Cada vez que me fui, que me vou, carrego comigo não só a lembrança da história que eu menos entendi, mas também a alegria de compartilhar momentos tão inesperados com alguém que me apareceu quando eu não esperava nada da vida. E cada vez que você vai embora, mesmo sabendo que vai voltar, ainda tenho esse medo de que o tempo te leve de mim e me faça acreditar que você nunca existiu. E é por isso que cada partida minha é, na verdade, uma partida sua. Porque eu também não me acostumei a ir embora sem te encontrar logo em seguida.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ela vai voltar




Lembrar de você é sempre um momento especial pra mim. Não que eu ainda espere o dia da sua volta. Porque eu sei que isso nunca vai acontecer. Lembrar de você, por pior que seja, me faz bem. Me faz sorrir à toa naqueles dias mais simples, aqueles dias que não trazem nenhum motivo de alegria nem de tristeza. Sorrio baixinho, pouquinho, sem ninguém ver nem ouvir. Porque, quando lembro, lembro de alguma coisinha legal nossa. Não lembro dos últimos dias, das discussões, dos minutos em silêncio. Lembro, por exemplo, das flores, das festas, das risadas na madrugada.
Às vezes, quando saio pra algum lugar, reconheço seu sorriso na boca de alguém, ou aparece uma amiga com seu nome. Não tem como não devanear por uns minutos quando isso acontece. O pensamento some. Fico até sem graça às vezes quando isso acontece e tem alguém falando comigo e tenho que responder "nada não" quando me perguntam por que fiquei quieto. Sorrio, disfarço. Ninguém sabe, claro, nem do seu nome, nem de você, nem de nada. Mas acho que imaginam o que deve ser.
Eu duvido que alguém lembre do passado com tanta alegria como eu lembro. As pessoas têm mania de olhar pra trás e já se lamentarem. Pra mim não é assim sempre. Claro que, assim como todo mundo, eu também tenho saudade de muita coisa, muita gente e muito tempo da minha vida. Mas eu lembro também que lá atrás, nesses dias, eu pensei, ou falei "vou aproveitar agora porque isso acaba; daqui uns anos não terei mais isso". Fiz minha parte, aproveitei como pude. Tentei aproveitar ao máximo. Agora não há nada a fazer mesmo. Nada nem ninguém vai voltar nem fazer voltar. Então por que ficar sofrendo tanto por isso? Prefiro agradecer por ter tido a oportunidade, por ter agarrado as oportunidades que tive. A vida continua, e o dia de hoje pode, sim, trazer tanta saudade daqui 10 anos quanto aquele dia 10 anos atrás.
Eu tenho os bilhetes, as cartas, as fotos porque na época achei que deveria ter. Minha memória as vezes falha, e é bom pensar como as coisas mudam tão rápido. Algumas até inesperadas demais.
Com você foi um pouco diferente. Parece que você não foi embora de verdade. Faz tanto tempo já que às vezes nem parece que você existiu mesmo. Que foi tudo uma invenção da minha cabeça ou uma história que eu li ou que contaram pra mim. Quando leio meus textos antigos, sinto uma espécie de déjà vu.
Talvez por parecer tanto que você não foi embora, sinto que você já está chegando. Estou aqui no mesmo lugar onde você me deixou. Não demora.