PORQUE NADA É PRA SEMPRE

Muito tempo atrás, quando o mundo ainda era mundo, nos primórdios do tempo, a humanidade vivia a chamada Época Dourada, ou Idade de Ouro. Nessa época, a deusa Harmonia permitia que os deuses vivessem em harmonia com as pessoas. E que as pessoas vivessem em harmonia com as pessoas. E que deuses, pessoas, animais e natureza vivessem em harmonia. A deusa Abundantia dava todo o sustento de que precisassem. Juno, Afrodite e Amor transformavam o lugar todo em um grande Éter: corpos exuberantes, belezas incomparáveis (mas nenhuma comparada a você Juno, calma!). Fauna e Flora davam a beleza natural de que o planeta necessitava. E Dies fazia os dias mais bonitos, e sua mãe Nix as noites mais lindas. Mnemósime e as nove musas cantavam, dançavam e interpretavam, e suas belezas e talentos eram admirados até pelo mais carrancudo dos humanos.

Tudo ia bem demais até que Discórdia, mesmo sem ter sido convidada para a festa, resolveu aparecer com um "presente" para as mulheres do lugar: um Pomo da Discórdia com a inscrição "para a mais bela das deusas". Tamanha foi a disputa entre as deusas que a visão de paraíso começou a ruir abruptamente. Houve muita fuga e muita ira. Abundantia não quis mais participar de uma sociedade em que Amor não tivesse lugar. Foi instaurado o caos. Foi nessa época que novos deuses começaram a acompanhar Gaia: os demônios Íncubo e Súcubo, Tânato, Plutão, Míser, Nêmesis. E a humanidade presenciou a abertura do portal de Averno.

Desde então, os deuses e os mortais originais se ressentem dessa época de tamanha paz. Sentem muita falta, inclusive, de pessoas com as quais conviviam e que não existem mais. Talvez tenham sumido, talvez tenham fugido, talvez tenham morrido. Talvez tenham se esquecido desse tempo e dessas pessoas. Talvez tudo tenha sido uma grande ilusão provocada por Somnos ou um delírio provocado por Fantasia. A verdade é que as pessoas começaram a sentir um grande peso por dentro, uma mistura de remorso, de nostalgia, de tristeza e de alegria. Vez ou outra, percebe-se que um sorriso se desenha junto a uma lágrima, ou uma lágrima nasce em meio a um sorriso. Tudo por conta das lembranças doídas e prazerosas de um tempo maravilhoso que a incerteza não deixa saber se voltarão. Ou se haverá novos dias tão felizes.

É que ninguém percebeu, estavam todos ocupados para perceber, que, quando os deuses maus apareceram, um outro deus discreto, silencioso, da cor da sombra que deixa as lembranças e os sonhos sem cor, surgia em meio ao vácuo do Universo. Foi assim que nasceu o deus Saudade.

Planos impossíveis Uma semana sem te ver. Eu já sabia que isso ia acontecer. O tempo passa eu fico mal. É ilusão achar que tudo está igual. Você apareceu pra mim. Não posso evitar me sentir assim. O que eu faço pra escapar dessa vontade que eu tenho de falar toda hora com você? Faço planos impossíveis pra te ver mas, pra mim, são tão reais. O que aconteceu, eu não me lembro mais. Eu poderia escrever mil canções só pra você. Poderia te falar meus motivos pra gostar tanto de você. Me diz quando a gente vai se ver. Pra eu poder te abraçar e tentar te explicar a falta que você me faz. Eu não aguento mais ficar tão longe de você. Você me diz que não tá bem. Que não para de pensar em mim também. Agora, antes de dormir, por dois segundos eu consigo até sorrir. Por que essa complicação? Distância é o fim pra quem tem coração. Será que eu devo te dizer que eu quase choro quando falam de você? Mas eu consigo segurar pra ter certeza que ninguem vai reparar que eu tô cada vez pior. E a saudade em mim é cada vez maior. E eu não sei se algum dia eu já me senti assim. Eu nem me lembro de querer alguém como eu quero você pra mim. E é por isso, que eu vou te dizer.

DO QUE VOCÊ TEM SAUDADE?|NADA É PARA SEMPRE|AOS OLHOS DA SAUDADE, COMO O MUNDO É GRANDE|É MELHOR TER AMADO E PERDIDO DO QUE NUNCA TER AMADO|ISSO TAMBÉM VAI PASSAR

Dois



Hoje é o primeiro dia sem você. Os primeiros raios da manhã estão quase pra aparecer e eu não consegui sequer fechar os olhos. Sua partida mexeu tanto comigo que eu não sei diferenciar o que é realidade, o que é sonho e o que é delírio. Acho que não dormi, mas não posso afirmar nada com certeza. Agora há pouco você estava aqui do meu lado, me olhando serena, como se tudo estivesse bem, e isso foi só mais um delírio. Como posso afirmar que uma coisa é miragem, outra cena real?
Eu sabia que se um dia nos separássemos, eu não saberia o que fazer. Mas nunca imaginei que pudesse ser tão terrível como está sendo.
Ainda é madrugada. O frio está de cortar. Talvez essa hora você já esteja embarcando no trem do destino. Tento me conter, mas essas lágrimas descem ácidas pelo meu rosto. Parece que toda imagem que eu vejo tem a sua forma, e o medo de como será a vida daqui pra frente me assombra tanto que eu vejo vultos por todos os lados.
Queria saber de onde tirou essa ideia absurda de me deixar aqui. Por que não me levou com você? Será que não tinha passagem pra mais um? Será que não tinha espaço pra mim na sua bagagem?
Por que não volta e nos dá a chance de viver a nossa vida pra nós como nunca tivemos oportunidade de fazer? Por que me deixa aqui sem notícias suas? Não faz um dia inteiro que eu te vi se afastando e sumindo na penumbra e meu coração está tão apertado que nem tem forças pra bater direito!
Está tão frio aqui! E quando eu tiver um dia ruim, quem vai levantar minha autoestima? E quando sair uma comédia romântica no cinema, quem vai se abraçar no meu braço lembrando episódios da nossa história?
Talvez, num dia solitário, admirando a paisagem do novo mundo, você me reconheça em alguma nuvem lá do céu. Talvez, daqui um ano, quando eu contar pros meus amigos que faz um ano que você se foi, eu não chore tanto quanto agora.
E quando os ventos do destino decidirem que é hora de você voltar, queiram as areias do tempo que não tenhamos ficado muito velhos para lembrar do nosso passado juntos. Que nossa memória não desapareça por falta de uso, e que nossas cabeças também queiram guardar nossas lembranças tanto quanto eu quero.
Que nessa indefinição de realidade e irrealidade, tudo isso seja só um delírio, talvez mais forte do que o da noite passada. Que quando eu olhar pela janela verei seu carro estacionado aqui em frente de casa, no mesmo lugar onde você o deixou quando veio aqui pela última vez, pra se despedir de mim, de nós.
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Vazio...

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