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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

I Sm 7:12



Hoje eu queria te falar. Sempre gosto de te ouvir, mas hoje gostaria de te falar. Não se intimide com isso, você verá como ainda te respeito e te admiro tanto! Como ainda te amo muito! Como não dá pra viver sem você. Não dá!
Eu não entendo direito as coisas que você me diz, mas não é porque você não sabe dizer ou por falta de comunicação entre a gente. É que eu sou muito limitado nas minhas capacidades. Todo dia aprendo algo novo, você vê isso. Mas você também vê que não falta vontade em me superar. É verdade, tenho errado muito, tenho te esquecido, tenho te deixado de lado, às vezes. Desculpe, muitas vezes. Mas, acredite em mim. Não falta esforço pra me tornar o que você espera que eu seja.
Meu coração não sabe te esquecer. No nosso último encontro até chorei, você viu. Chorei porque fico muito sensível na sua presença, me sinto um nada, um ser insignificante, não me sinto nem digno de fazer parte da sua vida.
Chorei porque meu coração está machucado, minha alma está partida, e só o fato de estar perto de você, de sentir que você me ama, me aliviou demais! Me fez sair do chão, me fez sentir querido como há muito tempo não sentia.
Me alivia saber que você ainda aposta em mim, que acredita em mim. Eu tenho errado tanto há tanto tempo, que me admira como pode ainda me amar desse jeito.
A verdade é que eu tenho passado momentos maravilhosos com você. Você tem me feito muito feliz. Você alivia minha dor, seca minhas lágrimas, e até me ouve quando começo a xingar sem razão e distribuir trovoadas pra todos os lados. Que paciência, né? Sinto-me até envergonhado diante de sua serenidade enquanto me ouve, enquanto cuida de mim, enquanto me protege.
Você me ouve e nem sempre fala, e às vezes é exatamente isso que preciso, porque começo a falar sem parar coisas sem sentido nenhum, só pelo momento da raiva, de cabeça quente. Tudo que preciso é alguém pra me ouvir pra parecer que tenho razão por um momento. E quem está sempre ali comigo? Até parece que aquele vento que alivia a dor foi você quem mandou...
Tenho tentado compensar minhas falhas com coisas que gosto de fazer, algumas vezes mais altruísta do que eu achei que fosse capaz. Tenho escrito textos para curar corações, para reanimar sorrisos. Tenho tentado curar as pessoas de um jeito muito tímido e simples, mas é como sei fazer, ou pelo menos tento fazer. Tenho ouvido as pessoas, seus problemas, tenho ensinado coisas como perdão e paciência, que para nós, mortais, não são coisas tão fáceis assim de assimilar, de colocar em prática.
A vida não tem me presenteado com momentos muito bons, mas é bom saber que sempre posso contar com você quando estou triste, quando quero fugir.
Por tudo isso é que vim falar hoje. Vim te agradecer por tudo que tem feito pra mim, por ficar do meu lado sempre e até quando foi todo mundo embora. Não é surpresa te ver aqui todo o tempo, mas sim reconfortante. Hoje vim tentar me desculpar pelas falhas, pelos erros. Você sabe que a maioria não é proposital, e ainda tento todo dia, e em tudo que faço, pôr em prática tudo aquilo que você me ensinou. Hoje vim agradecer a paciência, a insistência, o amor incondicional, o sorriso, a cura das lágrimas, o atendimento de meus pedidos, e o carinho com que tem cuidado das pessoas que mais gosto, e até daqueles que já estão aí perto de você, agora.
Perdoe os erros desse texto, e a simplicidade com que coloquei as palavras. Sei que você não liga pra essas frescuras, mas o que você faz por mim é de tamanha perfeição que me vejo na obrigação de te dar o melhor que posso fazer.
Agora, me ensina o que fazer, como fazer. Sou pequeno demais, mas quero ser grande pra reconfortar outros pequenos, como você tem feito comigo. Eu estou aqui pra ser o que você quiser que eu seja, Senhor.



domingo, 22 de novembro de 2009

Porta fechada



Chuva fina molha o espelho, e a minha imagem fica embaçada e até deformada com essas gotas. Será que você não percebeu que todas as vezes que te chamei pra conversar era porque queria sentir de novo aquela sensação de que você continua a mesma? A mesma menina que me espera voltar, que fica toda feliz com as invenções que temos. A mesma que eu conheci anos atrás, quando a nossa juventude era mais jovem, quando as preocupações eram menores. Quando, parece, éramos mais nós mesmos.
Tinha tanto pra te dizer, tanta coisa que queria que você soubesse... Mas não tivemos tempo. Suas obrigações, a cara fechada e a pressa em ir embora não te deram tempo pra mim, não te deram oportunidade de ouvir tudo o que eu tinha pra dizer. Diria que o mundo por um tempo é mais feliz quando sua vida invade minha vida, quando tratamos um ao outro como irmão, quando cuidamos um do outro, naquelas risadas e até nas lágrimas que só nós conhecemos.
Mas hoje foi diferente. Você não viu minhas lágrimas, não ouviu minhas palavras. Espero que chegue um tempo em que tenhamos novamente tempo pra podermos passar o tempo sem perceber como o tempo voa.
Agora preciso ir. É minha hora, está ficando tarde. Veja só, descobri que essas marcas de gotas na minha calça não eram chuva, afinal. Foram as lágrimas que caíram enquanto eu escrevia pra você o que não deu tempo de te falar pessoalmente. Mas não é por isso que vou falar de tudo, vou deixar pra quando te reencontrar pra te falar o mais importante, que aprendi a duras penas a não ter vergonha de confessar. É que eu te amo, minha amiga.

sábado, 14 de novembro de 2009

Última carta



Eu não poderia nunca deixar essa data tão importante pra você passar em branco. Branca é, aliás, a cor que eu usava naquele 05.06.04, a cor que você usava naquele 12.05.06 e é a cor dessa rosa. Branco... uma cor tão presente em tuddo que era nosso, né? Sabe o que me lembra? Falar BRANCO parece quando seu primo falava BRUNO, assim como meio que enrolando o B e o R. Por falar nele, o encontrei outro dia, e ele me perguntou por que tínhamos terminado. Felizmente não deu tempo de responder. Mas me responde, por que você não explicou pra ele? Melhor, você explicou pra alguém? Deu a mesma explicação sem fundo nenhum de sentido que deu pra mim, ou inventou outra coisa? Perceba que com isso assumo que só o que você me disse é verdade e que eu acreditei só nisso.
Eu pergunto 'explicou pra alguém?' e provavelmente não terei resposta. Sabe, na sua pele eu me sentiria muito envergonhado se a história fosse ao contrário. Explico: se fosse eu que tivesse tudo preparado pra terminar quando você voltasse, e te deixasse livre, leve, solta e perdida no mundo, e depois disso nem te olhasse nos olhos, eu me sentiria muito mal com isso. Afinal, não é esse o meu perfil. E não seria o seu também, claro. A menina que eu conheci e ficou dois anos do meu lado me pedindo pra nunca ir embora e repetindo que me amaria pra sempre nunca faria uma coisa dessas. Se bem também que aquela menina já era né? Essa agora quer jogar nossas coisas fora, tem vergonha do passado, me encontra e me trata como um desconhecido. Essa agora dá bola pra o que a ralé fala, não tem mais todo aquele amor próprio que fingia ter. Essa agora voltou a ter a companhia de uma classe muito inferior de gente. Por que, se juntos éramos o próprio padrão de amor perfeito? Porque, talvez, a menina apaixonada era de um jeito, a menina que fingiu que estava tudo bem desde fevereiro era outra completamente diferente.
E você, como está? Continua com os sonhos grandes ou eles foram caindo pelo caminho, porque as pessoas à sua volta não têm esperança - nem capacidade - de ter sonhos grandes realizáveis? Continua a mesma bailarina fantástica ou voltou a ver o mundo do ballet restrito a uma academiazinha sem futuro de uma cidadezinha do interior? Tem alguém te fotografando e te incentivando no palco, ou agora só tem pessoas falsas do seu lado falando que você dançou muito bem, sem coragem pra te mostrar seus erros?
Diferentemente de você, eu não quis jogar fora nossas coisas, presentes, fotos e lembranças. E se essas linhas gerarem alguma conversa futura, seja comigo, seja com a ralé, não engane a você mesma dizendo que está tudo superado e que não pensa mais nisso. Querendo você ou não, eu mudei seu caminho, e de vez em sempre você enfia a cabeça no travesseiro e lembra das músicas, dos lugares, dos perfumes e das palavras. Sei também que por menos que fale da gente, vivem te perguntando, e você sente necessidade de falar do que ocorreu com alguém, mas não pode porque ninguém quer te ouvir, nem você pode perder a imagem da garota que terminou o namoro. Ou da garota-só-imagem que você se tornou. Não diga que é mentira. As pessoas ainda me perguntam sobre você, e vez ou outra vêm me falar de você. Eu sei que o recíproco também é verdadeiro. Eu sei que você passa por lugares que fazem lembrar o que passou, uma música tocada diferente te lembra momentos especiais, e que se pega pensando em mim mesmo quando não quer. Mesmo que você queira jogar fora tudo que é relacionado a mim, infelizmente, ou felizmente, não é possível. Eu já passei por você, e as coisas nunca foram como antes de mim, e nunca vão ser.
Te vejo errando e fica muito claro que quando você dizia 'eu sou mais madura que muita gente da minha idade', você não sabe o que estava falando. Suas atitudes evidenciam muito isso. Pena que não sobrou quase nada da menina classe A que você tinha se tornado comigo. Infelizmente você ainda acha que é madura o suficiente e continua errando demais. Mas isso não cabe mais a mim, não é mesmo? Passarinho que voa com morcego dorme de cabeça pra baixo.
Segue sua vidinha pequena achando que sabe o que fazer em todas as situações. Mas são em situações críticas que a gente vê quem é quem de verdade, como eu te vi de verdade no modo como terminou nossa história.
Você sabe que eu queria muito o seu bem, e como eu te queria. Mas dessa vez apenas vim dizer adeus e partir.

Sabe com que caneta essa carta foi escrita?

07.11.06

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Enquanto você dorme




Eu ando pelas ruas e nada me agrada. As luzes de Natal já estão expostas, e nem o brilho das azuis, nem as brancas piscando, me animam. As lojas todas enfeitadas, as pessoas conversando alegres, nem parece que o mundo é esse mar de porcarias que eu vejo. E que só eu vejo. Será que ninguém notou minha roupa? Eu escolhi, antes de sair. Não peguei aleatoriamente. Será que ninguém reparou que eu não reparei em ninguém? Será que sou só eu que percebo que o sorriso está disfarçando uma tristeza? Será que sou só eu, no meio de tanta gente, que não se conforma com a vida como é? Não as coisas como são, mas as coisas como estão. Genericamente falando, assim, nem parece ter tanto sentido. Mas eu sei. Sei o que se passa, sei o que acontece. Eu sei.
Muito tempo atrás eu acreditei no que me diziam. Faltava experiência dos anos, sobrava confiança num futuro prometido que sonhavam por mim. Meus pais queriam me dar o que eles não tiveram. Eu serei assim com meus filhos. Não sei se é um erro. Penso que não. Se for, errarei exatamente igual. Quem sabe pensar assim, hoje, seja falta de experiência, novamente pra entender o que projetam pra mim? Não pode ser que estava escrito pra eu caminhar tudo isso e não chegar a lugar nenhum. Recuso-me a acreditar nisso.
Os pensamentos se misturam harmoniosa e desordenadamente, enquanto luzes de neon mostram o caminho para um lugar onde eu nem queria tanto assim chegar. Mas cheguei, ok, cá estou. E todas aquelas pessoas? Bah, não existem mais. Eu sumi com todas. Sumi com aquele estorvo que não me deixava em paz, sumi com todas as memórias que me consumiam, me apertavam, me faziam mal. Lembranças que me faziam não viver por mim mesmo, não me deixavam mais prestar atenção no meu mundo, esse mesmo que eu criei, só meu, que ninguém mais vê. Sou feliz com isso, acredite. Não, eu não disse que você não é benvindo nele. Eu disse que não quero mais ninguém nele. Não pense que não gosto de você. Mas é que no meu mundinho eu penso que sou capaz de fazer as coisas acontecerem. Sou super heroi, sou cowboy. Mas logo termina, e eu volto. Se você estiver aí fora ainda, prometo que deixo você pensar que consegue me tirar dessa loucura.
Eu pintei seus olhos com o brilho daquela estrela. Eu purpurinei seu cabelo com a cor da lua, e te olhando assim, nessa meia luz, posso até criar nomes pra estrelas. Que tal? Olha aquela ali. Não parece que pisca pra gente? M ou N? Deixa pra lá. Não sou bom com isso. Talvez com as palavras? Posso tentar? Ei, volta, não acabei.
O que está na sua memória agora? Do que você se lembra? Será que lembra do passado como um tempo bom? Ou um tempo a ser esquecido? O que pensa da sua vida? Ou não pensa que é uma vida? Sabe... eu penso. Eu penso e eu lembro. Minha memória sempre me presenteia com alguma coisa diferente. Sempre com um sonho à noite. Que me faz acordar diferente. Que me faz continuar. Quanto mais vou pra frente, mais olho pra trás. É esse desejo de dias melhores que me faz renascer em minha vida coisas dos tempos já idos, da minha juventude mais jovem. Da minha terra, da minha casa, de coisas e pessoas que perdi. Do sonho que não realizei, dos planos dos quais me esqueci. É assim que levo a vida hoje, sempre em pedaços, pedaços de tempo, pedaços de chão, pedaços de mim mesmo que ficaram no passado, num lugar que nem eu me lembro, mas que me faz tanta falta hoje. É por isso que quando meu coração dispara frente a um acontecimento novo, mas antigo, eu fecho os olhos e me permito, por um momento, viajar para onde o pensamento me mandar.
Às vezes aparece num final de tarde. Às vezes no olhar de alguém que passa rápido por mim na rua e some. E eu nunca mais vejo. Às vezes é nas lágrimas que ninguém vê, é no sorriso que disfarça as marcas da chibata do tempo. Às vezes é no acorde que vibra as fibras do meu coração. Está na música que toca alto, e que some quando me pego relembrando meu melhor olhar. Dias melhores, lágrimas menores. Mas resisto, ao menos por fora, pelo menos por ora, pois sei que esse tempo é passageiro. Não sei se vão sentir saudade de mim, mas também não me importa. O que eu sei é que eu vou sentir saudade, eu vou lembrar, daqui dois anos, ou contando pros meus netos. Se tiver netos. Porque eu sei que eu estou acima dessas coisas, estou acima da minha saudade, dos meus próprios pés, mas muito abaixo dos meus sonhos. E é por isso que ainda não parei de andar. E também por isso que não paro de olhar pra trás, imaginando o dia em que estarei de volta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Prelúdio




Amiga minha, senta aqui do meu lado. Hoje eu quero te ouvir. Hoje você vai poder falar de tudo que está sentindo, de tudo que tem te atormentado durante esses dias. Eu sei, "tudo" é muita coisa. Mas eu não tenho pressa com você. Podemos prolongar essa noite até quando quisermos. Até ficarmos cansados de falar, de chorar, ou não aguentar mais de sono. Vem aqui, senta mais perto. Vê como tá silêncio aqui? É, eu sei. Escolhi esse lugarzinho pra gente ficar à vontade.
Não sabe por onde começar, né? Eu sei. Já estive na sua pele antes. Eu começo então. Assim você se sente mais tranquila. Os pensamentos não estão se encaixando, né? Eu sei... Eu sei como você está se sentindo. Fica tranquila. Tudo que conversarmos aqui, hoje, ficará somente aqui. Pode confiar em mim. Eu não seria capaz de te trair. Isso não faz parte de mim. Não sei mentir. E você vale muito pra mim, pra eu arriscar te perder tão fácil assim.
Sabe, muito tempo atrás, eu chorava só de ouvir um nome. Foram tempos difíceis, aqueles. Me vi sozinho no mundo. Sem amigos. Sem companhia. Sem eu mesmo... Sabe quando você não cabe dentro de você? Quando nenhuma baladinha é boa o suficiente, nenhuma pessoa te agrada... Era assim. Saía de casa porque ficar confinado só piorava as coisas. Mas não tinha pra onde ir, com quem ir. Tinha nada pra fazer.
Eu tive meu orgulho ferido, amiga. Eu fui dispensado no auge da minha forma. Eu me sentia bem, eu me esforçava pra conseguir, e tinha chegado num ponto muito alto da minha vida. Poderia ficar daquele jeito pra sempre! Ficar daquele jeito era, aliás, o plano. Onde foi parar tudo, eu perguntava. Até hoje quando ouço as músicas daquele tempo, me vem tudo à memória. Mas não é mais como antes. Como disse, foram tempos difíceis. Eu sobrevivi, como pode ver. Hoje, eu ensino outras pessoas a saírem do buraco, e até a não caírem nele. Eu saí do submundo em que vivia, como pode ver. Quer saber como foi? Eu te conto.
Eu carrego um defeito comigo. Eu nunca estou satisfeito. Mesmo nas coisas que estão do jeito que eu gosto, sempre tento melhorar. Veja bem: eu disse tento. Conseguir é uma outra história. Essa sede de melhorar, de progredir, de prosperar, foi meu carro chefe naquela época. Mas também não pense que esse carro chefe sempre esteve lá pra mim. Eu fiquei caído um bom tempo. Não me importava com aquela situação deprimente em que eu me encontrava. Estava conformado que era o fim do caminho pra mim. Com isso acabei conhecendo gente muito interessante. Eu contei tudo sobre mim e mesmo assim elas quiseram me acompanhar. Mas eu não tive a sensibilidade de - ou não era o momento pra - mantê-las em minha vida. Assim acabei perdendo gente que tinha tudo pra ser muito especial pra mim, por conta do atoleiro em que eu me afundava cada vez mais.
Os dias foram passando, os meses... O pensamento voava longe, tirava meus pés do chão, eu devaneava na aula e mal conseguia dormir à noite. As músicas me perfuravam por dentro, e uma vez ou outra voltava a sentir o perfume no ar, mesmo que não fosse aquele perfume que me fazia delirar. O tempo passava, e eu acelerava cada vez mais forte. As lásgrimas corriam, não tinham hora pra cair. Nada me agradava. Meu curso, meus amigos, meu time... Nada. Eu odiava tudo. Nada valia a pena se não a tivesse comigo de volta.
Quanto mais eu pensava, mais me doía por dentro tudo aquilo. Mas quanto mais eu pensava, mais ficava fácil de ir superando. A ideia é bem simples: quando alguma coisa acontece, quando você perde alguém, quando você é derrotado na vida, e não tem mais nada que você possa fazer, você já fez tudo que estava ao seu alcance, pra superar você vai passar por dois degraus: é preciso entender e aceitar o que aconteceu. Não necessariamente que esses dois degraus venham ao mesmo tempo. Eu acabei entendendo primeiro, tudo o que aconteceu. Reorganizei meus pensamentos, passei a dar valor em quem estava ali pra mim, em quem se importava em me ver maior, mais forte. A quem se importava em me ver, pelo menos, em pé. Já era mais do que eu tinha conseguido em muito tempo.
O tempo foi passando e, entenda, o tempo não faz nada por você. Ou você faz alguma coisa pra mudar a situação, ou tudo vai continuar exatamente como está.
Foi assim que, com força pra me aguentar em cima das minhas próprias pernas, recomecei a trilhar meu caminho. Sacodi a poeira, abracei todo mundo que estava em volta de mim, e me convenci: esse não sou eu.
Aos poucos, fui superando uma coisinha de cada vez que estava entalada aqui dentro. Aos poucos a raiva foi passando, as lágrimas foram ficando mais raras, e não era mais um problema pra mim falar nela. Foi aí que aceitei o que tinha acontecido.
Amiga, olha pra mim. Olha pra mim. Deixa eu secar essas lágrimas. Isso. Está melhor. Borrou um pouco a maquiagem, e daí? Você continua linda. Sorria pra mim. Isso. Muito melhor. Vem cá. Deixa eu te abraçar. Esquece o que passou, vai ficar tudo bem. Eu garanto. Pode confiar em mim. Não te faria confiar tanto em mim se fosse tudo mentira.
Eu sei que posso porque sobrevivi depois da minha alma despedaçada. Eu sei porque meu coração já esteve mais vazio que o seu. Aprendi sozinho como levar um coração sofrido, uma alma cansada. Aprendi sozinho a entender um olhar como o seu, que me diz que não sabe o que fazer, que pede ajuda mas tem medo de confiar. Ouça o que eu te digo: se jogue nos meus braços, deite nas minhas palavras, eu te garanto que te farei mais tranquila todo dia. E quando só quiser gritar, chorar, xingar e falar, eu prometo te escutar quieto. Não se preocupe, isso não me atinge, isso não me derruba. O que me derruba é te ver assim, caída. Eu estou acostumado com seu sorriso lindo. Quero voltar a dançar com você, criar aquelas coisas loucas das quais que a gente se mata de rir. Num mundo em que é cada vez mais comum cada um se preocupar em cuidar só de si próprio, o que eu mais quero é cuidar de você.
Aqui, pega a minha mão. Você está segura agura. Não vou te soltar. Você não vai cair mais. Não precisa falar se não quiser. Deixe sua alma descansar, deixe sua cabeça acalmar agora. O pior já passou, eu te garanto. Sente esse vento gelado? Vê como ele seca suas lágrimas? Quando eu não estiver perto, quando minha mão quente não puder secar suas lágrimas, pensa nesse vento como um sopro meu em você, um sopro de confiança, um sopro de quem gosta muito de você. De quem sabe que você tem um valor inestimável, muito maior do que essas vozes aí dentro estão gritando que você vale.
Mas por hoje deixa assim como está. Apenas descanse. Apenas esqueça que o mundo é um lugar ruim. Não pense em nada. Não diga nada. Não agora. Esqueça aqueles gritos de dor do passado. Agora está tudo bem. Agora é que as feridas vão começar a se cicatrizar. Confia em mim. Eu fico aqui com você essa noite, e enquanto você precisar de alguém pra te lembrar como só a sua existência já é suficiente pra que o sol nasça amanhã de novo.
Feche seus olhos e durma bem.
As coisas ruins ficaram pra trás já. Ontem você chorou. Hoje não mais.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A música toca uma vez mais




O tempo tem esse péssimo hábito de transformar as coisas. No entanto, não gosto de dizer que é culpa dele. Prefiro pensar que nossas escolhas nos aproximam de algumas pessoas, enquanto outras nos levam pra mais longe. Assim como as escolhas das outras pessoas as levam pra longe e as aproximam de outras.
Eu tive um ano inesquecível, pra mim. Foi 2000. O ano em que muitas coisas boas me aconteceram, uma em sequência da outra, uma ao mesmo tempo da outra. O ano em que conheci gente que mudou meu caminho. Ou melhor, que me fizeram ter escolhas que mudaram meu caminho. Pra muito melhor. Carrego comigo até hoje muitas coisas que aprendi naquele tempo, e muita gente de quem aprendi a gostar. O convívio em grupo (grande), as diferenças, e a quase responsabilidade de ser o centro das atenções, me fizeram entender muitos valores que ainda carrego comigo.
2001 foi um ano particularmente ruim. Foi o ano em que perdi quase tudo de 2000. E quase todos. Os que não se foram em 2001, se foram nos anos seguintes. E assim, ano após ano, cada um seguia seu caminho pra mais longe de mim, e eu seguia o meu pra longe do que um dia foi o tempo que eu pensei ser para sempre. E assim escolhas minhas, numa tentativa de reviver os bons tempos em outros lugares, em outras companhias, sucederam-se dia após dia nos anos seguintes. Nas fotos, os intermináveis sorrisos que não existiam mais, e as inseparáveis pessoas com quem não tenho mais contato nenhum. E na memória tocam as músicas daquele tempo, de um tempo distante, hoje músicas velhas. E me vejo recitando de novo as velhas poesias que arrancavam sorrisos sinceros, e rindo em novas companhias.
E assim foram meus anos, foi minha caminhada. Depois de tudo acabado, de perdido todo o contato com as pessoas que eram as responsáveis pela alegria dos meus dias, e me reencontrar em outros lugares, com outras pessoas, e outros sorrisos, mas sem aquela mesma emoção de antes - outras, novas, claro, como tudo há de ser e sempre será - a saudade judia da memória sempre que toca uma música daquele tempo ou quando alguém lembra algum episódio engraçado. Ou simplesmente quando quero fugir da rotina e me lembrar de como eu já estive rodeado de tanta gente que me queria tão bem, e que eu queria tão bem, eu paro e revivo aquelas cenas como se ainda fossem reais. Era pra ser pra sempre. Com certeza era. Eu sabia que seria. E foi pra sempre. Não só enquanto durou, mas eternizado na minha memória.
Quase dez anos depois de tudo que aconteceu, de confissões em tempos perdidos e revivendo parte do passado, recebi uma visita inesperada. Não sabia que aquela lembrança ainda se lembrava de mim. Não sabia nem que sabia meu nome. Ela me viu. E eu não a vi. Claro que sabia meu nome. Naquela época ela me disse "eu gostava de você, sabia?". Foi aí que, entre uma mensagem e outra, "entre um sorvete e outro beijo na mão", que ela disse "descobri que aquilo era uma paixãozinha que resistiu ao tempo".
Acabei percebendo que, embora escolhas tão parecidas como a que todos tiveram, de nos afastarmos sem percebermos, acabaram dando um jeito de escolhas involuntárias se atraírem pra me fazer querer voltar no tempo e reviver 2001 de um jeito diferente.
Porque metade da vida é feita das escolhas que nós mesmos fazemos. E a outra é feita das escolhas que fazem por nós.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tormenta



"Tem hora que bate / Uma tristeza tão grande / Que eu não sei o que fazer / E nem pra onde ir"

"Yo no siento nada / pero presiento que a chorros se escapa / la magia de mi alma gastada"

Eu sempre fiz grandes planos, sempre tive grandes sonhos. Sempre estampei em meu rosto um grande sorriso, sempre fiz as pessoas ao meu redor mais alegres, mais animadas com a aparente alegria. Assim, sempre fiz todos acreditarem que não tenho problemas, que o sorriso é sempre verdadeiro. Não é bem assim.
Tudo nessa vida tem um fim: alegria ou tristeza. Um dia tudo chega ao fim. Como um grande plano realizado, sua grande conquista encerra uma caminhada. Como as notas de alegria, como os prelúdios de tristeza. Como os grandes amores, e as grandes amizades. Grandes pessoas se vão embora com tanta frequência quanto as pequenas. Mas estas últimas são em maior número, mais fácil de contar, e as primeiras em maior intensidade, mais fácil de sentir a ausência.
Assim se vão os grandes sorrisos, as grandes lágrimas. Ficam as grandes memórias, as grandes saudades. Vão-se os bons tempos, os constantes sorrisos. Sobra um grande vazio, uma grande sensação de culpa.
Fica uma grande vontade de voltar, de ter tudo de volta, um medo de arriscar coisas novas, de conhecer gente nova, de viver diferente. Vontade de parar, de colocar os pés pra cima e a cabeça pra descansar.
Nota-se um cheiro diferente no ar, uma sensação de pesar, de estar sendo seguido. Paranoico? Não sei... não. Você vai me levar pra casa hoje?
Não me sinto bem, e isso não é de hoje. Estou doente, mas não é doença de morte. Quero ir embora, não quero ficar. Quero voltar pro meu reino, prá minha vida, pro meu mundo. Quero me sentir querido, quero me arrumar pra sair à noite, perfumado. Quero dar flores. Quero marcar encontros, frequentar shows, baladas noturnas. Não quero chegar cedo, não quero dormir cedo. Não quero mais continuar assim. Não quero mais continuar aqui.
Quero publicar livros, compôr músicas, arriscar poesias. Quero voltar a escrever pra mim.