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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Hoje não mais



Olhe fundo no meu olhar. Eu sei, você não gosta que olhem nos seus olhos. Mas olhe nos meus agora. Não há mais nenhuma lágrima aqui, nem aquela velha ilusão de não acreditar na realidade. Aprendi me virar sem você, você mesma quem me ensinou. Não que eu quisesse isso, mas infelizmente você foi embora sem ter tempo de se despedir de mim, nem eu de você. Talvez tenha sido melhor assim, agora alimento sua memória como se nada tivesse acontecido, como se na nossa história não tivesse uma vírgula e muito menos um ponto final. A quem eu quero enganar que sua ilusão não é essa lágrima? Só não entendo por que isso agora voltou...
Ontem mesmo lembrando chorei, te implorando por um pouco mais. Ontem chorei, hoje não mais...
Já senti tudo isso, eu sei. Eu também não queria o fim. Sua partida me fez entender: fiquei assim.
Ontem mesmo lembrando chorei te implorando por um sonho a mais. Ontem sonhei, hoje não mais.
Talvez um dia eu entenda e pare de olhar tanto pra trás, dê pause nos momentos e consiga não te deixar me ver chorar.
Ontem mesmo lembrando chorei te implorando por um pouco mais.
Ontem chorei, hoje não mais.
Amanhã vou repetir esse discurso, hoje não mais.
Enquanto isso a vida vai passando...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Se tem mesmo que ser assim



Seria mais fácil se fosse temporária, se eu pudesse chegar em casa e te encontrar ali de novo. Seria tudo bem mais simples se essa sensação de perda fosse só uma confusão da minha cabeça, e em poucos dias tudo voltasse ao normal. Talvez eu não sentisse meu peito tão vazio diante do vazio da sua ausência, se a sua ausência significasse só um sonho ruim, e que daqui a pouco, hora que eu acordar, vou te ver ali de novo.
Talvez meus olhos uma lágrima não inundasse toda vez que toco no assunto dos que já se foram, sem citar seu nome, sempre que ouço sua voz, sempre que uma menção a despedida me faz lembrar você. Talvez eu ainda não escutasse seus passos sempre que chego em casa, e sua respiração na madrugada, se isso tudo fosse, na verdade, produto da minha imaginação, coisas que minha cabeça cria, que se fundem com a realidade, dando essa falsa impressão de que, se olhar pra trás, verei seu peito enchendo e diminuindo com a respiração profunda.
Talvez eu não escutasse seus suspiros, não sentisse sua presença virtual, ou pensasse que a qualquer momento você vai reaparecer como se nunca tivesse ido embora.
Então se as coisas estão como estão, se o que me sobrou é entender essa situação e aceitar essa condição, me ensina como eu faço, se o amor que surgiu por você ainda faz meu coração bater todo dia de manhã.

sábado, 18 de julho de 2009

Um dia vem



Um dia os sorrisos serão tantos que vai ser difícil lembrar de quantas lágrimas foram o desfecho de dias felizes.

Um dia voei alto, alto e, diferentemente da última vez, deixei uma porta de escape, quando caí. Se um dia o passado virar presente, como no dia que o futuro virou presente, é por essa porta de escape que volto.
Um dia vou conhecer as flores da Europa, a Torre Eiffel , o inverno da Rússia, talvez desacompanhado, mas não sozinho. E dessa vez vou pra escolher nosso apartamento e a igreja em que nos casaremos.
Um dia vou escrever livros de amor, reunindo os melhores textos que já escrevi, de memórias tristes, de tempos bons, da história da minha vida, que farão tanto sucesso que o amor será o único sentimento a me unir às pessoas.
Um dia vou tirar do baú os melhores abraços que eu ganhei e mostrar aos meus filhos dizendo que tipo de mulher eles devem procurar. Não a que será a primeira a arrepiar o braço, mas a que vai segurar minha mão quando o último dia de vida chegar.
Um dia vou comer muito chocolate sem me importar se estou gordo demais ou velho demais pra isso. E me esbaldar nas piscinas de água quente, de água fria, não importa, desde que o abraço seja quente e a sensação na barriga seja de friozinho.
Um dia vou perceber que não consegui realizar todos meus sonhos, não por não tentar, mas porque eles eram tantos que uma vida não é suficiente. E nesse dia também vou me dar conta de que consegui criar em alguém tantos planos, tantas expectativas, tantos sonhos que ela também não conseguiu realizar todos, e também porque eram muitos.
Um dia vou me perder num abraço sem fim... E esse abraço vai durar por toda a vida.
Um dia vou me lembrar do passado como quando tudo começou, e não como quando tudo se perdeu. Um dia vou trazer o passado de volta, e mostrar pros meus filhos dizendo que tipo de mulher eles devem procurar.
Um dia vou me lembrar das lágrimas que sequei sozinho sem um desejo de vingança por quem as fez cair, e dos sorrisos que precederam essas lágrimas. Um dia veio e isso passou, e agora não espero mais um dia de derrubar alguém, mas o dia de amar alguém.
Um dia vou reler as redações que nunca divulguei, as cartas que nunca entreguei, da história que eu mesmo inventei. Vou entregar todas, pra que saiba que mantive as memórias todas vivas esse tempo todo.
Um dia vai chegar e eu vou entender que, no fim, o amor que se recebe é do tamanho do amor que se dá.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Além do óbvio




Corro os olhos pela noite já iniciada e o vento noturnal traz um frio repentino e inesperado. Aponto a fronte pro céu e o sereno vem anunciar a tua partida. As luzes dançam harmoniosamente pelo firmamento, e minha mente já desregrada sobrepõe imagens de agora e de outrora, de tempos idos em que tua presença embelecia este por ora lastimoso passamento. E ao lembrar de cada aurora em que pude presenciar tua angelical face repousando à sombra da lua, dói-me a penumbra que me assombra e desconsola, abafando qualquer nova tentativa de despertar um sorriso diante de tua partida, desta pálida juventude a quem alimentaste sonhos e esperanças de pela eternidade subpujar os martírios que a realidade assola à fraca existência.
Se de alguma forma ainda encontras um meio de comunicar-te com os simples mortais que agora te velam somente na lembrança, lançai um latido, um grito de alegria, pra que esta noite não seja mais tão conturbada quanto foi a noite passada e muitas outras que a atecederam. Como um sineiro carregando a noite pesada, trazendo uma sensação fria e cruciante, de um presságio já anunciado, atroz, que me recusei a aceitar: a ilusão sempiterna mostra-se efêmera frente à fragilidade da carne ao não perpetuar os curtos anos de melodias de alegria.
Então me desfaço, te observo ao longe. Vejo-te mesmo distante, sonhadora, refletiva. E que São Francisco te carregue no colo, como fiz naquela manhã, naquela noite, em que agonizaste com a fraqueza dos anos avançados, com o olhar triste, na ausência dos sons das notas de alegria. Se não fisicamente, mas com o coração despedaçado e em pratos, como o fiz na noite do dia em que nos deixaste.