em qualquer lugar do mundo

rss

quinta-feira, 30 de abril de 2009

No fim dessa estrada



Às vezes...
...o mesmo vento que levou alguém muito especial traz alguém muito especial. Não que as pessoas sejam substituíveis, mas é preciso continuar a vida.
...pessoas especiais causam dor e derrubam a gente. A queda é tão grande que cair de joelhos e lamentar é tudo o que sobra.
...a dor é tão insuportável que até cair e chorar dói por dentro, e ver como o mundo ficou só piora tudo.
...o amor é tão grande que, acostumar com um coração batendo sozinho, leva tanto tempo que seria melhor que parasse de uma vez.
Chegam as horas das dores. Dores de quando se acabam os amores. É muito difícil encarar uma despedida, um fim de tarde que traz muitas lágrimas e um aperto muito forte no peito. Sem entender direito o que está acontecendo, apesar de saber exatamente o que aconteceu.
Chega a hora de escolher um caminho. É uma escolha difícil. Mas é muito mais difícil quando o caminho é traçado e a única opção que se tem é seguir o que lhe foi imposto. Especialmente quando o que se queria era o outro lado da estrada.
Chega uma hora em que perdemos toda a fé, toda a força, toda a esperança para continuar. E é justamente nessa hora que precisamos de toda a fé, toda a força e toda a esperança para podermos continuar.
Chega uma hora em que continuar é uma dúvida. Continuar sozinho, sentindo por dentro a dor da solidão que não passa, e a vida não dá opção para escolher se vamos continuar assim ou não, nem até quando isso vai durar. Continuar acompanhado, se é o fim, quando tutto finisce, a incerteza do amanhã, e até do hoje, se haverá um sorriso, se tudo estará aqui no próximo encontro, se o próximo encontro é, na verdade, uma despedida. Continuar com os sonhos, sem saber se todas as partes do sonho ainda vão existir quando acordar amanhã de manhã, ou se a memória vai esquecer alguma coisa essa noite. Ou alguém. Se a noite for escura demais, e nenhuma estrela vier avisar que essa noite não tem luar, e seguir sozinho, ou encarar o vento frio na espera eterna da volta, da saudade que não passa, que ninguém tira, que nenhum texto consegue aliviar.
É quando se confia, e essa confiança não vale a pena, quando se declara, e esse amor vem só de um lado. Acontece quando uma amizade fica com cara de começo de namoro, e quando o amor vira só um gostar da companhia. E nada mais.
É difícil ir embora, querendo ficar, é difícil dizer adeus quando o que se espera é um abraço de reencontro. É duro ver um sorriso de despedida dizendo "eu nunca vou te esquecer", quando o que se quer é uma madrugada inteira começando por "eu tava morrendo de saudade de você".
Talvez amanhã os quadros da minha parede não estejam mais aqui, e as minhas caixas com as provas do meu passado sejam finalmente destruídas. Talvez as pessoas sumam, quem diz gostar muito de mim eu nunca mais veja. Talvez ganhar um carinho amanhã seja muito caro. Por isso guardo na memória esses tempos bons enquanto eles ainda existem, e os que já estão guardados, porque sei que de lá não vão sair, vão viver pra sempre com as mesmas cores e serão sempre pelo menos uma boa lembrança, uma saudade gostosa de sentir. Porque o que eu sinto não está em nada que se possa pegar ou ver. Não está em uma pessoa, num blog, numa fotografia. O que eu sinto está no tempo. No tempo que eu esperei por você.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Mas me avisa assim, no mesmo minuto



E finalmente chega a meia-noite, dando fim a um curto período que deu fim a uma longa série de espera. É nesse exato ponto que eu me ponho a pensar o que saiu de errado. Será que sou eu que sou tão ruim de planejamento? Porque antes eu tinha pelo menos a possibilidade de que era uma ansiedade de momento, e agora a única opção que sobrou é aceitar as coisas como estão. Talvez seja melhor assim, mesmo. Tem coisa que não é pra existir e não cabe a mim decidir quais são e quais não são. Começo um novo planejamento, talvez tão falho quanto o anterior, mas não sei fazer de outro jeito.
Chega a manhã, e era mais um período que eu estava muito esperando. Tanto que demorei pra dormir ontem, apesar das poucas horas de sono na noite anterior. Você me acostumou a me deixar esperando todo dia de manhã aquelas várias mensagens de como estava difícil assim, que o melhor é parar de sonhar, que nosso tempo nunca ia chegar, e que toda noite - inclusive naquela - tudo que você quer é me esquecer.
Sei que você ainda espera textos e palavras que te tirem do chão, palavras de um ídolo para uma fã, que olha nos olhos e dedica cada parágrafo como se fosse único, como se não trouxessem idéias repetidas lá de trás. Tudo porque não tenho mais o mesmo talento, a mesma inspiração e a mesma habilidade pra desenhar linhas que te façam me olhar com os mesmos olhos que se apaixonaram por mim só de me ler.
Espero que fique bem, que fiquemos bem. Desculpe não publicar a carta que me pediu - você me deu a opção de escrever sem mandar. Talvez um dia você entre aqui e se identifique com algum texto, perceba que foi escrito pra você (ou não). Por agora, só peço que deixe tudo como encontrou. O que foi seu refúgio pode voltar a ser, e pode ser o de alguém algum dia, que me admire e me olhe com tanta força quanto você fez. Que me faça sentir tanta alegria quanto senti naquela primeira quinta-feira.
Feche os olhos e durma bem. Essa noite eu queria te esquecer.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Toda noite eu quero te esquecer



Eu não falo nada, mas pressinto que as lágrimas caem. A marca da minha mágoa desgastada. Uma sirene distante, e as minhas palavras que não ecoaram. Fiquei de braços fechados, com as mãos no bolso da blusa, olhando pro mesmo lugar de onde vi você indo embora da última vez. O vento frio, de uma noite fria, de um dia frio, incomodava meu cabelo, que nunca para no lugar. Perdia-me nos meus pensamentos e não tinha hora pra voltar.
A qualquer momento, ali, onde aquelas luzes retraem as pupilas dos que também esperam, você pode chegar, olhar pra cima e me encontrar lá de baixo. Imagino o cachecol tomando a forma do vento, e seu cabelo brilhando conforme a lua some e reaparece por detrás das nuvens.
Por que esse olhar tão sério? Eu estive aqui, te esperando. Vem, sobe aqui comigo. Segura a minha mão. Eu esperei tanto tempo pra saber como era o toque dos seus dedos, se seriam tão mágicos quanto o toque dos seus olhos. Toque uma canção pra mim. Eu não quero ver você tão triste assim. "Quem não gostaria de ser o 'mim' das 'canções que você fez pra mim'?". Essa não é uma canção, muito menos tem rimas, e zero são as chances de isso um dia fazer sucesso. Mas esse é pra você. Espero que você não se importe, agora que já está escrito. De qualquer forma, ficaria aqui. Corações cansados entram aqui e leem isso. Talvez sirva de consolo pra alguém. Talvez entrem mais pessoas e pensem "pra quem será isso?", e sumam, voltam à vida real. É assim que funciona.
Mas não vá embora ainda. Você nem me contou as histórias que prometeu. Onde está aquela fantasia, e os castelos de areia? Não me olha assim, você sabe que eu não resisto... Um sorriso então, pra eu pensar que está tudo bem... Obrigado, isso vai garantir um pensamento bom à noite. Promete que volta?

Setembro, 2004



Oi, Bruno. Como estão as coisas por aí? Comigo vai tudo mais ou menos. Não tenho me sentido muito bem, esses dias. Faz tanto tempo que a gente não se vê né? Sabe, acho que tô me acostumando a te ver aqui em casa, chegar cedo e ir embora só de madrugada. Fico esperando ouvir o barulho do freio de mão aqui na frente, e depois a campainha de leve. Até parece que todo sábado de manhã vou te encontrar mesmo. Estranho, né? Eu ainda faço todas minhas coisas, saio com as meninas, e tal, mas tem dia que eu sinto falta da gente sair à noite, chegar em casa quase de manhã, e depois o almoço de domingo ainda. É tudo novidade pra mim, claro, não sei se gosto mesmo disso tudo.
Esse tempo todo tem me colocado pra pensar no que está acontecendo entre a gente. Tá meio diferente pra mim. Nunca tinha passado por isso. Tem horas que bate uma insegurança, uma incerteza, sabe? Meio que ansiedade pelo que está acontecendo, o que está vindo, o que me espera lá na frente. Fico meio confusa no meio de tantos pensamentos, pra saber se você pensa em mim assim como penso em você... Se tem falado de mim, se ainda se perde em pensamentos com a gente juntos.
Tem horas que a ficha demora pra cair, e parece tudo irreal. Nem parece que está acontecendo mesmo...
Agora resta esperar e ver o que vai acontecer né? Enquanto isso, te deixo meu melhor abraço.
De quem gosta muito de você.

domingo, 26 de abril de 2009

Abril, 2004



Oi, Bruno.
A gente nem se conhece tão bem assim. Estava acostumada a te ver na rua, ou aqui em casa, mas não por causa de mim. Eu adorei o sábado à noite, adorei ter saído com você. Minha mãe perguntou onde eu estava até tão tarde de madrugada, eu respondi "com o Bruno". Ela fez uma cara de "hmm aí tem coisa hein?". Mas nada a ver, né? Ela sabe que somos só amigos. Ela gosta bastante de você. Certeza que ela ficou pensando coisas.
Sabe, não esperava que fosse dar certo mesmo, essa festa que a gente foi. Quando a gente conversava dos meus problemas - aliás, eu não esperava nem que você fosse se interessar por eles - e saímos aquela primeira vez, e apareceu essa festa, e você disse que passaria aqui pra irmos juntos... Não acreditei até que te vi ali na frente me esperando. Enquanto me arrumava ficava pensando "ai, Meu Deus, será que ele vem mesmo? Acho que ele não me deixaria esperando, não o Bruno. Ele conhece minha família, não faria isso comigo." E confesso que estava muito ansiosa e preocupada com o que usar, se você ia gostar, se ia "me aprovar", se eu ia parecer muito menininha, se ia me enfeitar demais. Nenhuma blusa combinava com a calça, depois o sapato não combinava com nada... O mais fácil mesmo era a maquiagem. Acho que não fui tão mal né?
E você? Gostou? Você quase não falou nada... Mas a gente nem conversou direito depois daquele dia né? Nem tivemos tempo de nos falar... Bom, quando der certo a gente se fala, então.
Quando você vem de novo?
Se tiver um tempinho vai lá em casa, minha mãe vai adorar.
Um beijo, Bruno.
Até mais.

sábado, 25 de abril de 2009

As últimas cartas



Hoje uma surpresa me fez perder o chão. Ao chegar em casa, vi no chão algo que alguém tinha jogado por baixo da porta. Talvez as contas do inquilino anterior, que ainda não mudou o endereço de correspondência, ou as contas a vencer em 10 dias. Engano.
Aqueles papéis eram algo que eu não podia imaginar. Eram um pedacinho da minha vida que não estava escrito, eram parte da minha história que não existia mais.
Eram vários envelopes, cada um com uma tonalidade de amarelo diferente, de datas diferentes. Alguns estavam amassados, outros dobrados, e uns poucos até que bem conservados. Não sei onde essas cartas poderiam estar esse tempo todo. Talvez dentro de uma gaveta, talvez perdidas no correio. Talvez nem tenham sido escritas recentemente. Talvez estivessem dentro de um caderno velho, e caíram no chão em uma mudança, ou numa limpeza da velharia. Talvez tivessem sido enviadas, ou devolvidas, e nunca chegado. Era um pacote amarrado com um elástico bem apertado, e um bilhete dobrado em cima, com meu nome escrito.
Reconheci aquela letra redonda e pequena, e a pouca força usada na caneta. O endereço de longe, tão longe, e sem carimbo dos correios.
Talvez não tenha dado tempo de enviar, talvez sejam palavras que ficaram presas e, por conta da despedida, nunca foram soltas. Talvez tragam pensamentos soltos, declarações de amor, ou confissões de uma pessoa em crise. Talvez revele segredos dos motivos reais do fim, ou explicando por que não pudemos existir, mesmo com tantos motivos pra existir. Talvez um pedido de desculpa, uma lágrima, uma tristeza contida, um suspiro de saudade... Talvez revelações das perguntas que não tenho resposta até hoje...
Joguei minhas coisas no sofá e li o papel que estava por cima.

Bruno, estive arrumando umas coisas lá em casa, e no meio de todo o entulho encontrei as últimas coisas nossas que ainda estavam lá escondidas. Sei que foi muito tempo que passamos juntos, e fiquei até surpresa com a quantidade de lembranças que ainda existia - eu achei que tinha dado fim a tudo. Entre uns cadernos, caixas e embrulhos de presentes encontrei estas cartas que eu escrevi, mas nunca lhe mandei. Sei que você tem escrito muito, que tem um certo apreço pelo passado, e essa coisa toda, então estou lhe enviando tudo, certamente você saberá dar o devido fim a tudo. Não quero que pense que é uma forma de me livrar dos últimos pedaços da nossa história que ainda estavam vivos aqui em casa, comigo. Leia tudo, você vai me entender. São cartas desde o comecinho, e a mais recente foi escrita algumas semanas depois daquele fim, quando tivemos nossa última conversa. Fique à vontade para guardá-las. Não me sinto bem tendo isso perto de mim. Estou saindo de casa, vou me casar. Vou levar só o necessário e deixar pra trás tudo que não faz parte do meu presente. Espero que você esteja e seja tão feliz quanto o que você planejava. Até algum dia.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Come fai tu quando resti con me



Espero...
que a sua pele macia repouse suave no meu peito,
e que seu abraço de incerteza me agarre pela cintura, dizendo sem palavras o medo que você tem disso tudo acabar sem um adeus.
Sonho que isso seja um sonho com medo de acordar e não ver seu sorriso comigo amanhã.
Lembro do seu cheiro que ficou em mim, e da roupa amarrotada, com saudade da sua mão no meu cabelo e as suas confissões que saem porque estavam transbordando.
Imagino sua cara de alegria na primeira vez, da ansiedade do primeiro encontro, sem disfarçar o frio na barriga, desejando me esquecer toda noite.
Escuto sua voz repetindo frases minhas, e um pedacinho do meu texto pra todos lerem assim, disfarçado, sem saberem o que significa de verdade.
Não sei se haverá tempo pra sentir sua respiração de novo e te olhar bem de perto. Não sei se vou conseguir encontrar as palavras certas pra provocar um sorriso bobo quando elas faltarem.
Sei que me esperava sem falar, sei que me provocava só por diversão, pra disfarçar o que você não queria aceitar. Pensei em você às vezes, quando me faltaram mãos e sorrisos em noites difíceis. Sei que, de alguma forma, já nos encontramos em sonho, em pensamento, apesar dos desencontros. Agora aperte a minha mão. Veja os meus olhos, como eles te olham, como você faz quando está comigo. Mas não minta pra mim, não finja que não te conheço. Sei que virão novas noites de inverno e outros dias frios. Talvez sem nos perdemos, dessa vez. Talvez você pense em mim, quando precisar de um texto triste em um dia triste. Talvez sorria lembrando de alguma besteira que eu falei, ou uma piada que eu não soube contar. Talvez minha timidez não me traia, talvez o vento te leve umas palavras do fim de abril. Mas promete que volta no começo de junho?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Perché prima di domani finirà



Acordei e ainda era dia. Abri os olhos pra uma realidade que eu preferia que fosse sonho. Era fim de tarde, e eu senti que era o fim da minha vida. Senti que eu chorei, ainda tinha o gosto amargo da derrota na boca. Não queria me levantar, não queria aceitar as coisas como estavam. Como fui deixar escapar das mãos assim uma história que eu tanto quis?
Eu não sei como vai ser, quando nos encontrarmos. Será que vou conseguir sorrir de novo, mesmo sentindo por dentro a dor e as pontadas das lembranças que insistem em marcar cada passo que eu dou? Será que vou conseguir disfarçar, e te beijar o rosto como se o coração não estivesse louco pra encontrar o seu num abraço apertado?
Um dia eu sei que vou passar em frente sua casa de novo, talvez propositalmente, só pra reviver por alguns segundos o portão se abrindo e você vindo correndo em minha direção. Eu sei também que, nessa ânsia por não te lembrar, vou acabar errando o caminho e seguindo em direção sua casa, sem querer, porque os pés se acostumaram a me levar sempre pro mesmo lugar. Foi tanto tempo assim, vai ser difícil reacostumar. Se eu passar por aí, mesmo que sem querer, promete me dar um sorriso, mesmo que tímido, e me abanar a mão, como se estivesse contente em me ver de novo, e não ficar pensando como sou ridículo de ainda cruzar a rua "sem querer" só pra ficar perto de você uma última vez?
Sei também que um dia vou me pegar repetindo alguma mania sua, só porque eu me acostumei a isso sem perceber, e ainda repito gestos e frases feitas como se você estivesse aqui do meu lado, me ensinando essas coisas. Talvez nosso nome raspado naquela árvore magrela da praça ainda esteja lá, daqui uns 20 anos, quando eu levar meus filhos pra passearem pelo interior, e mostre pra eles um pedacinho que ainda existe de dias felizes da minha juventude. Talvez eu tire férias em Agosto, e toque alguma música que ouvimos juntos, um dia, abraçados, na mesma noite fria em que o tempo parou para nós, e o mundo inteiro sumiu do nosso redor.
Queria te encontrar, sabe. Falar tanta coisa. Mas eu nem sei se você quer me ouvir, se quer me ver. Você estava tão decidida aquele dia. Tenho medo de te procurar e encontrar um lugar vazio, ou meu lugar ocupado. Talvez um dia eu tome coragem pra pelo menos esvaziar meu coração de tudo que está entalado aqui. Você pode nem ouvir, você pode nem estar ali mesmo. Mas eu preciso falar.
Hoje foi o primeiro dia que eu te vi depois do... Mas eu nem te olhei, não quis olhar. Fiquei com medo dos seus olhos encontrarem com os meus e desvendarem os segredos que venho guardando há tanto tempo. Passei reto, nem me prolonguei. Abaixei a cabeça e sumi. Não sei por que fiz isso. Foi instinto, receio de você perceber tudo. Não sei o que você faria com essas informações.
Mas essa foi a última vez que fugi. Depois disso, tudo pareceu tão mais claro... Definitvamente era o fim. Era hora de acabar com tudo. Jogar tudo fora, ou guardar escondido, só pro coração não tomar um susto quando vir meu quarto limpo e uma tela preta no meu computador.
Fico pensando... Por onde você anda agora? Será que já virou prá esquerda, saindo de casa, invés da direita, e perdeu a mania de não comer nada à noite, por causa daquela velha paranóia de se achar gorda? Será que uma vez ou outra ainda pensa em mim, assim, só prá cabeça não assustar quando vir tudo limpo, e as paredes sem os quadros da memória?
Mas um dia vem, e é só mais um de uma série de longos dias que ainda vou viver esperando um sinal de vida. Um dia veio, e foi o último de uma longa série de dias frios que eu escrevi, e acabei dormindo em cima e borrei tudo. E rabiscos que eu rasguei porque estava bêbado demais pra pensar que palavras pudessem mudar a sorte traçada de um caminho jurado pra morrer.
Sei que é chegada a hora das dores de quando acabam os amores. Então... Se é hora de ir embora, não precisa fingir mais. Se já está com as malas prontas... Só diga que me ama... Amanhã nada mais estará aqui... Amanhã, você não estará aqui... Um dia vem e... Tudo acabou...

domingo, 19 de abril de 2009

Dias frios




Tem uns dias na vida da gente que a saudade bate mais forte do que outras vezes. Esse ventinho gelado e o domingo de manhã ajudam a alimentar esse desejo incontido de voltar no tempo, pra um lugar que eu mesmo não sei qual é. Sei que dá muita vontade de ter de volta algo que perdi. Sinto que faltam alguns pedaços em mim, mesmo sem saber que pedaços são esses nem por que estão fazendo falta. Sinto que faltam algumas partes, talvez de um tempo bom, ou de alguns sonhos que eu tinha e que, por um motivo que eu também não lembro, não tenho mais.
Sonhos que deixei de ter não por ter desistido deles, mas que acabaram sumindo, porque esqueci, porque foram adiados, porque não se realizaram... Provavelmente porque sempre pensei que aqueles tempos seriam pra sempre. Talvez fossem mesmo, eternizados na minha memória. O que eu não sabia é que a eternidade viria de formas diferentes. Tem tanta coisa, tantos motivos... Será que todas as pessoas desse mundo alguma vez já sentiram isso que eu estou sentindo?
Eu sinto muita falta de carinho, em dias frios. Sinto falta de uma janelinha piscando, me convidando pra uma conversa informal. Sinto falta de fazer planos pra dias frios, dirigindo nas ruas paradas da madrugada da minha cidade. Sinto falta daquelas risadas todas, e da certeza do reencontro, dos shows sertanejos, da poeira subindo, e daquele abraço inesperado no começo do show de rock na festa de peão.
Sinto falta daquele cheiro de chiclete de hortelã pertinho, dos perfumes que eu não sei o nome, e as luzes do fim da festa me levando pra casa.
Sinto falta de sentir aquela amizade sempre perto de mim, do chocolate, da Pepsi Twist e dos filmes que eu dormia assistindo.
Tenho saudade de deixar o pensamento correr sem limite, buscar vozes lá de trás, enquanto espero o café esfriar, e lembrar, sem doer o coração, dos dias frios em que eu mais me senti um ser humano.
Queria fazer de conta que ainda é cedo, que eu ainda posso mudar meu destino, que eu ainda posso pensar na garota quase sonho como uma possibilidade real, não um plano pra um dia realizar, sem ter nem idéia de quem possa ser essa fantasia que eu criei. Queria viver um dia de domingo sem pensar que é o dia que eu mais odeio, sem precisar ir embora, nem ver ninguém indo embora. Queria de novo alguém me dedicando músicas que eu não conheço, músicas que falem "por que você tem que ir e fazer as coisas serem tão difíceis?", músicas que me fazem gostar só por alguns minutos de rock, de pop e dos cantores que eu não conheço.
Posso até disfarçar que essa vida encerra tudo que eu planejei e que meu crescimento me fez chegar até esse ponto porque era onde eu queria chegar, mas sempre sobra uma saudade nos meus olhos que eu não consigo enganar. E sempre volto ao mesmo ponto de onde saí. É dele que eu sempre recomeço, analisando friamente o que tenho hoje - sabendo que tudo que tenho é uma imensidão, que planejei tudo e que busquei tudo. Mas sempre parece que falta alguma coisa, alguma dívida do passado que ainda não paguei, ou alguma dívida que o passado tem comigo. Fica muito difícil reviver momentos que eu nem sei quais são. Tento sem sucesso trazer pro hoje a nostalgia que mais me faz falta lá de trás, mas quando é minha vez sempre me parece que eu parei no tempo, que a vida é assim mesmo, ela gira, gira, e ficar parado não faz ninguém evoluir. Talvez seja mesmo hora de abandonar a saudade e deixar isso de sistemático, como se fórmulas mágicas de momentos incríveis ainda pudessem me fazer viver as experiências que já se foram.
Sei que alguns costumes lá de trás eu ainda tenho comigo, e faço questão de não perder. Mas quando esses dias frio chegam, e essa nostagia bate, fica quase impossível não me abater com a lembrança de memórias que minha cabeça apagou.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tant pis si j'en pleure




Talvez não sejam as minhas palavras que fazem sonhar. Talvez seja um restinho da minha história que meus dedos gostam de escrever. Pode estar numa dor, da qual não lembro, ou de um roxo na perna que eu não sei como ganhei. Podem ser estas olheiras, as unhas roídas, o cabelo despenteado. Pode estar no lençol que eu não troquei, no banho que eu não tomei, ou no abraço que eu não ganhei.
Talvez tudo que escrevi até agora tenha sido sem querer. Talvez tenha tocado corações - não sei - e eu nem me dei conta disso. Talvez eu tenha acordado, mas o dia escuro me faz pensar que ainda era de noite. Não está na hora de acordar? Sombra do vale, noites na montanha. Palavras roubadas, versos que não são meus. Poetas que agonizaram noites a fio esperando a lua pratear a lousa, e eu aqui, repetindo o que a tuberculose levou.
Talvez seja um meio de me fazer feliz, conseguir escrever sem sentido, sem memória, sem linhas rimando. Nas entrelinhas? Procure. Pode ser que você encontre algo, mas não é sempre que eu faço pra provocar. Às vezes aparece num final de tarde e eu nem percebo.
Não é sempre que quero provocar, que escrevo pra tirar do sério, que espero uma resposta. Às vezes sai assim, porque estou cansado ou porque o coração sangra. Acontece com todo mundo. Vai dizer que você nunca percebeu? Há rosas vermelhas por todo lado, e você se joga na cama esperando respostas, músicas novas.
Ah! Quantas histórias escrevi aqui já... 114? Quase 3 anos. Quem poderá dizer que foi tudo de propósito, que eu planejei tudo? Preciso contar com a sorte também, de jogar o verde na hora certa, de lançar ao mar a rede do lado certo do barco... Minhas derrotas também são contabilizadas aqui. Mas quem entra aqui não vem procurar mais problemas, vem procurar soluções. Procura respostas nessas histórias tristes, procura um incentivo pra continuar, procura uma razão por que tudo está assim, por que tudo mudou, se não era pra mudar. Como vou saber? Eu lanço as borboletas contra o vento, elas que procurem o néctar. Aqui tem, também. Pode repousar aqui. Tem palavras pra corações abatidos, pra almas defeituosas. Pra mim não tem caso perdido. Sou carne de pescoço. Eu vivo pra consertar. Se alguma vez consegui atingir quem me lia, ponto pra mim. Com certeza em algum lugar do mundo existe alguém com uma história triste no amor que fica melhor quando me lê.
Pra mim é suficiente.

terça-feira, 14 de abril de 2009

L'essential est invisible pour les yeux




Gosto da ansiedade, quando vem de repente e explode em palavras, pra não transbordar. Gosto do sorriso, quando vem de um coração batendo forte, falando sozinho excesso de informação. Gosto dos olhinhos apertados, quando vem do sorriso espontâneo.
Gosto do braço fazendo abraço, junto do meu braço, segurando meu abraço, como se voasse quando se prendem assim.
Gosto de dias de chuva, se não é dos meus olhos que a água cai, e dos dias de calor, mesmo quando o calor é o abraço, e o dia é a vida fazendo da noite um dia na minha vida.

J'aime tous ces choses, ton sourire et mon sourire, quand il viens de ton sourire. Et quand tu me dis ces choses que j'aime tant écouter, ces choses que tu dis sens penser.

Que diz pra mim, sem coragem de olhar no olho. Que ouve, sorrindo de timidez. Que diz gostar, que diz viver, que diz acreditar nas minhas palavras. Que espera tanto, que sonha alto, que faço parte disso tudo.
E se for a causa de tudo, que seja lindo, porque tudo isso eu nem sei se existe mesmo. É o que eu sinto, são os barulhos que ouço sem precisar estar perto. Porque isso tudo, não preciso de olhos pra ver. É no escuro dos olhos que se delineam ce chose essentiel pour mes yeux.

sábado, 11 de abril de 2009

Um dia



Um dia os sorrisos serão tantos que vai ser difícil lembrar de quantas lágrimas foram o desfecho de dias felizes.

Um dia eu vou voltar a voar o mais alto que puder e, diferentemente da última vez, vou deixar uma porta de escape, caso venha a cair.

Um dia vou conhecer as flores da Europa, a Torre Eiffel , o inverno da Rússia, talvez desacompanhado, mas não sozinho.

Um dia vou escrever livros de amor que farão tanto sucesso que o amor será o único sentimento a me unir às pessoas.

Um dia vou tirar do baú os melhores abraços que eu ganhei e mostrar aos meus filhos, dizendo que tipo de mulher eles devem procurar.

Um dia vou comer muito chocolate sem me importar se estou gordo demais ou velho demais pra isso.

Um dia vou perceber que não consegui realizar todos meus sonhos, não por não tentar, mas porque eles eram tantos que uma vida não é suficiente.

Um dia vou me perder num abraço sem fim...

Um dia vou me lembrar do passado como quando tudo começou, e não como quando tudo se perdeu.

Um dia vou me lembrar das lágrimas que sequei sozinho sem um desejo de vingança por quem as fez cair, e dos sorrisos que precederam essas lágrimas.

Um dia vou reler as redações que nunca divulguei, as cartas que nunca entreguei, da história que eu mesmo inventei.

Um dia vai chegar e eu vou entender que, no fim, o amor que se recebe é do tamanho do amor que se dá.


quinta-feira, 9 de abril de 2009

14.12.2004



Você pode estar aqui amanhã, seus sonhos talvez não.
Amanhã pode chover, e você não esteja com a saúde perfeita para se molhar.
Amanhã talvez um grande amor lhe apareça, e você esteja preso demais nas coisas fúteis da vida pra se dar conta disso.
Pode ser amanhã que seu melhor amigo não esteja aí pra você, e você vai estar estuporado demais pra entender que nada é pra sempre.
Amanhã pode ser o dia, e você ainda esteja cego demais prás coisas e pessoas que a vida lhe traz, e você nunca tem tempo pra lhes dar valor.
Pode ser que amanhã alguém precise muito de você, e você não esteja totalmente preparado para ser tudo o que esperam de você.
Amanhã tudo pode acontecer.
Você só não pode esperar que amanhã alguém lhe traga flores. Esperar que amanhã alguém lhe estenda a mão e lhe ajude a levantar.
Amanhã pode ser tarde demais pra você declarar todo o seu amor, mostrar o quanto você se importa, fazer o que gosta, ficar com quem realmente importa.
Amanhã pode ser tarde demais pra se dizer "eu te amo", "você me faz muito feliz" ou "você é tudo pra mim".
Amanhã você pode não estar mais aqui, e aí vai ser tarde demais pra fazer qualquer coisa.

02.12.2004



Créditos à histórinha da Turma da Mônica.

-Que tristeza é essa?
-Você? - (alegria) - Você me perdoou? Voltou pra mim? Eu prometo que vou tentar me consertar, você vai ver.
-Calma aí.
-O que eu fiz agora?
-Me desculpe falar isso, mas eu não sou ela.
-Agora que eu percebi, você está azul.
-Eu não estou azul, eu sou azul. E esse é meu nome. Eu sou o espírito que acompanha a desilusão, que auxilia as pessoas que estão tristes, que ajuda os outros a se livrarem da angústia. Você me chamou e eu vim.
-Então me desculpe, dona Azul, eu não quero conversar agora. Você se parece demais com ela e achei que... (olhar triste e lágrimas) achei que ela tinha voltado pra mim.
-Olha, eu apareci com essa forma porque sei que você gosta dela, e só assim iria me ouvir.
-Hum, hum.
-Por que você não desabafa comigo? Por que não tenta explicar o que aconteceu?
Silêncio durante muito tempo.
-Olha lá em cima. Está vendo aquelas nuvens? Quando eu estava com ela parecia que eu estava voando lá em cima, no meio daqueles enormes algodões brancos. Era tudo tão bonito e perfeito! Como se todos os problemas aqui embaixo tivessem sumido. Mas parece que tudo que é bom um dia acaba. Foi como se ela chegasse em mim e falasse: "Ei, menino. você não tem asa." E eu caí. Caí lá de cima.
Silêncio. Olhar concentrado no pôr-do-sol. Lágrimas.
-Sabe que você tem razão? É isso que... Ué! Azul? Cadê você?
Voltou lá e conversou com ela.
-Eu percebi uma coisa. Se você tem algum problema, e ele te faz lembrar que você não nasceu com asas e por isso você não merece voar, então você dá uma risada disso tudo e diz: "Eu posso não ter nascido com asas, mas eu mereço voar sim!" Porque eu fui atrás da minha felicidade e faço nascer asa nova quando eu quiser.

01.12.2004



Texto pichado num muro na rua XV de Novembro, em São Carlos.

Hoje o lobo da estepe
Vai encontrar a lua cheia
E lançar para o céu vazio
O seu uivo mais triste e lancinante

28.10.2004



Texto retirado de oggi.festim.net, hoje desativado.

Palavras não me saem, hoje.
Situação inconcebível, olha só pra mim, estou mudo.
Logo eu. Mudo.

Flores severas que se alçam e dão-se a cheirar. Espinhos.
Apenas espinhos é o que são. Nada.
E toda a música do mundo que se cala em letras tristes
E o tempo - espera que se desespera no tiquetaque dos relógios - todos quebrados.

Calo, deito mas não durmo - sonhos são, eles mesmos, verbais demais.
Não quero verbos, frases, vozes. Quero a fragrância de algo que não fale
Que não diga, que não cante. Plantas silenciosas que estejam lá, e lá fiquem.
Coisas - pedras, solidez, uma rochura
Cinzenta que não amanheça todos os dias como as cores berrantes
Que amanhecem e berram e amanhecem e berram.
E é tudo uma manhã constante, um ensurdecer ensolarado que me dói
Olhos e ouvidos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um barco que vai



Imagine que você está à beira mar e vê um barco partindo. Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando e se afastando cada vez mais longe. Até que finalmente parece apenas um ponto no horizonte, lá onde o céu e o mar se encontram. E você diz: "Pronto, ele se foi". Foi onde? Foi a um lugar que a sua vista não alcança, só isso. Ele continua tão grande e tão imponente como era quando estava perto de você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele exato momento em que você está dizendo "ele se foi", há outros olhos vendo-o aproximar-se e outras vozes ansiosas dizendo: "Ele está chegando!".

23.09.2004



Se você não ler, não tem problema. Eu queria escrever, não ser lido. Sei que quem entra aqui já se cansou de ver escritas tristes. Mas o que posso fazer se só me dá vontade de escrever assim? Acho que posso ser útil de alguma forma para as pessoas que estão prá baixo se eu colocar aqui uma palavra de consolo, ou realista, que possa transportar mais pessoas prá longe desse mundo. É, eu também sou só mais um palhaço que não gosta de ver a realidade como ela é. É muito bom viver nos sonhos, eu acho. Então me deixe sonhar e pode deixar que assim que o sonho acabar eu caio e me machuco MESMO. Não tem sido nada fácil levar os dias assim. Às vezes eu sinto que o mundo se esqueceu de mim. Parece que todo aquele universo mágico que eu criei e conquistei não existe mais. Amigos que nem se lembram mais de mim e, como diz na capoeira "tem gente que eu ensinei e hoje quer bater em mim". É complicado esse negócio de solidão. Do jeito que eu saio eu chego: ninguém me acompanha, ninguém me nota, ninguém lembra. Às vezes leio um "bejo arce" mas não é suficiente. Não é porque é muito pouco e eu quero sempre mais. Não é de quem eu quero. Você não está aqui do meu lado, como quer que eu sorria? Como quer que eu me distraia com coisas que eu acho interessante se sem você nada é interessante? Eu já não aguento mais isso. Não me aguento sem você. Vem prá mim. Vem pro meu mundo. Vem pro NOSSO mundo. Não sou mimado, só quero ser lembrado, ser querido. Será que um sonho pode mesmo se acabar? Será que o que conquistamos realmente volta para nós? Sozinho... sozinho... É muito difícil quando a emoção fala bem mais alto que a razão. Estou zonzo. Não me sinto bem.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

De braços abertos



Se eu pudesse me dividir no tempo, colocaria uma parte de cada abraço que ganhei em cada despedida que passei, pra lembrar uma última vez de cada sorriso que eu abafei.



Se minha palavra pudesse chegar onde minhas mão não alcançam, sussurrariam no ouvido palavras de uma alma cansada, para aliviar uma alma cansada.
Se eu pudesse fazer valer o que eu penso, e o que eu aprendi em todas as vezes que meus olhos ficaram cegos por não ver o mundo sem um sentimento que me fizesse viver, talvez eu pudesse me explicar e alguém talvez me entenderia.
Se eu conseguisse escrever linhas completas de significado, e não me escondesse atrás de palavras bonitas, talvez as marcas escuras do meu coração não parecessem tão bonitas, olhando de perto.
Se eu conseguisse abrir os olhos dos que agora se fecham num mundo solitário, vítimas de um amor acabado, talvez dessem mais valor aos verbos que eu insisto em conjugar na primeira pessoa.
Se as primeiras pessoas do singular e do plural não se confundissem nos meus textos, quem sabe as pessoas que aqui caem sem saber por quê lessem com mais atenção, e não se perdessem entre uma confusão e outra.
Se eu conseguisse explicar pra quem escrevo o que escrevo, talvez eu não me encontraria falando de um amor tão sublime, de um sonho que tira os pés do chão, que engana a dor por um momento e, ao voltar para a realidade, não fosse tão duro ver como estas palavras estão tão certas e tão bem encaixadas.
Talvez explicar que estas palavras se encaixam porque os corações não são iguais, senão pela dor da despedida, não seja tão fácil, e explicar como consigo explicar seja uma tarefa que vou deixar subententida.

Trago remédios para a alma, e curas para os corações mais doídos. Não tenho pretensão de ser algum tipo de salvador, ou ser lembrado quando a vitória finalmente chegar. Quero, sim, explicar esses segredos da existência, e como tudo pode ser facilmente entendido sem muito esforço. Não quero necessariamente ser reconhecido pelo modo sublime de escrever, pela fala macia, por olhar nos olhos quando falo. Quero que minhas palavras repercurtam e ressoem nos corações vazios, enchendo de esperança e vida os que mais precisarem, e que confiarem em mim pra isso. Mas, mais importante, que não me abandonem quando estiverem curados, mesmo sabendo que a partida é inevitável. Mesmo sabendo que tudo que vai me restar depois de tudo é uma boa lembrança e uma sensação de dever cumprido. Não faço por ninguém, faço por mim, pelos pecados que cometo, como uma forma humilde e pequena demais de levar adiante sentimentos e sensações que rezei muito para receber, e hoje consigo entender só de encontrar olhos que não dormiram a noite toda.

Não me venha com problemas prontos, frases batidas ou conversas fiadas de psicólogos. Não sou médico, não sei tudo, mas não sigo regras, não sigo filósofos nem iluministas. Minha cura vai além disso. Vem da poesia cantada, vem dos versos sem rima, vem de noites doentias em claro. Meus remédios eu mesmo fiz, eu mesmo inventei. Foram textos que nunca publiquei, versos que nunca rimei, e abraços que nunca esqueci. É pela minha memória, pela minha saudade, pelos cheiros que sempre me matam quando sinto sem querer, andando pela rua, em meio a rostos que escondem um coração sofrido. É pela música antiga, pelos acordes raros e pelo si bemol que muda o tom de qualquer melodia.

E que seja benvinda qualquer alma que queria em meu porto seguro procurar um abrigo. Terá sempre um cais donde atracar. Mas não me venha com mentiras e esperando tratamento fácil. Isso não admito e não posso prometer. Garanto o alívio da dor, nem que seja por um instante, e a realidade mais amena quando ela chegar.

Termino como sempre me despeço: não fui eu quem curei, foi sua fé. Que seja então feliz, e passe adiante o que eu te ensinei.

É por isso que consigo amanhecer brilhando mais forte, que minha memória ainda guarda nomes e sobrenomes. É por tudo isso que insisto na minha vida, fazendo valer outras vidas. É por mim mesmo, por ter conseguido sobreviver, e ainda aprender por conta própria, como fazer valer a minha vida, mesmo sem outra vida. Mesmo que outras vidas só em pensamento. Pra mim já vale. Um grande sorriso me basta.

domingo, 5 de abril de 2009

Pena




Não preciso de mais respostas. Seria uma ofensa à minha inteligência precisar perguntar pra entender. Nem todo crescimento é uma evolução, assim como viver de superficialidades é viver num mundo em que a própria ilusão é enganada. Trair a própria memória só não é pior do que trair-se a si mesmo. E trair a si mesmo, traindo a própria memória, é uma forma de involução muito precária.
Talvez quando você perceber que tipo de besteira tem feito, não seja muito tarde. Talvez você perceba que não tenha sido tudo em vão, que seu crescimento não se deteriore porque quis retomar os passos perdidos, de um mundo sem elegância, de uma ilusão assentada em preceitos que você já havia superado. Mas paciência, se a sua memória continua péssima e você não se lembra das mentiras que insistia em me dizer como verdade, sempre dando a certeza de que o mundo antes era uma droga e que o que eu ensinava te fazia muito melhor.
Talvez você se encontre em algum beco sem saída de novo, tentando passar uma falsa impressão como se dissesse i stll hate you, mostrando que na verdade tudo continua exatamente como sempre foi, como deveria ser.
Não tente se enganar, não pense que consegue me enganar. Você nunca conseguiu isso, não seria agora que conseguiria. Até entendo você querer ser o que não é, afinal, nossa história não foi o que deveria ter sido. Será que sou eu que devo pedir desculpa por você ter dispensado meus serviços? Acho que não... Não é bem assim, comigo. E eu pedi tanto pra você não colocar palavras na minha boca, e você prometeu que não o faria... Queria te lembrar de novo que o último adeus ainda não tem explicação pra mim, mas aceitei sua decisão.
É triste olhar de fora e ver o que você fez com você mesma. Você não era assim, sabia? Você era muito maior do que isso. Mas agora é você e seu mundo. Não sei se é o mundo que você criou, mas tenho certeza que não é o mundo que você gostaria que fosse.
Se quiser trair sua memória, traia. Mas, por favor, não esqueça que na sua memória reside um passado que cruza com a minha história. Trair a si mesma pode significar trair a minha memória. E pela minha memória, esse seu mundo não é mais do que um sonho que não reflete a sua realidade.