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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Metalinguagem I



Escrevo, pois não me resta outra saída. Reorganizo as letras, pois não me resta outra idéia. Jogo palavras, pois não me resta outro artifício. A palavra pela palavra, o som das sílabas, tudo escandido sem métrica, sem lógica. A confusão que estes versos causam por não possuírem razão de ser. De ser como é, não de como era ou de como deveria ser. Não tratem da sintaxe, da análise léxica, da análise gramatical, verbal, nominal. Tudo aqui não passa de grupos de letras.
Vale mais o som que transmitem e a forma como essas ondas vibram do que o próprio sentido que têm. Não é meu forte utilizar a linguagem de forma rebuscada e difícil. Escrevo simples. Pois pra mim assim é simples. Traduzo o que estiver pra ser dito, sem adornos, direto. Um floreio casual por ora me ocorre. Poesia não sei fazer. O mais perto que chego é fazer uns versinhos rimarem e pronto. Crônica também não é minha praia. E também não sigo uma escola literária definida. Gosto do classicismo, romantismo. Apesar de viver no realismo. Mas acho que posso sobrepôr os tempos verbais, ou temporais, para que fique tudo uma coisa só. Afinal, tenho uma licença poética que me permite escrever da minha forma, da forma como eu encontrei de montar o quebra-cabeça das palavras. Não sei nem se o desenho final é atraente. Metalinguagem. Desta vez utilizei uma figura de linguagem da palavra pela própria palavra. Entendeu? Tudo bem, era metalinguagem, não meta-emoção.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Una storia che vale




Hoje quem vê esse sorriso apertando as bochechas não imagina que isso é o resultado de uma vitória.
Hoje quem me vê correndo ou vem correndo me pedir conselhos, mal sabe que um dia os dados rolaram pra mim e eu tive que ser forte e me agarrar em qualquer coisa que pudesse parar a queda.
Eu também tive a alma quebrada, eu também vi meus sonhos caírem no chão, senti minha vida perder o sentido e as pessoas se tornarem desnecessárias. Eu também arrisquei e perdi.
Eu também tive ânsia, tive medo do que estava pra acontecer, tive medo do futuro e meu passado eram fantasmas gritando ao meu redor. Eu também suei frio ao pôr-do-sol sem ninguém pra ouvir meus gritos de dor.
Eu sonhei, e meus sonhos eram vagos, tinham uma luz muito forte e eu mal conseguia enxergar à minha frente. Eu lembro de ter escorregado muitas vezes e ter ficado no chão durante muito tempo sem ninguém me dar a mão.
Eu lembro de tempos em que era difícil sorrir, no tempo em que a chibata do tempo batia forte... e eu não lembro de ter feito nada que justificasse tamanha dor...
Mas eu nunca desisti. Eu não sei nem quantas pessoas passaram por mim nesse tempo todo, talvez eu tenha até deixado escapar algum amigo por entre os dedos, mas eu precisava correr, já havia perdido tempo demais. Não era hora de ficar parado. Eu sequei minhas lágrimas, me levantei e corri contra o vento e contra o tempo.
Numa certa hora eu voei. Senti que meus pés não tocavam mais o chão, que minha imaginação agora era minha realidade. Todo o mundo à minha volta, todas as pessoas, as sensações, os cheiros... Nada existia, só eu, o meu sonho e o meu mundo.
Quantas vezes eu rezei até dormir, quantos dias se passaram sem eu desistir. Eu continuei tendo pesadelos, eu continuei tomando porrada sem saber o motivo. Mas na minha fantasia, existia um lugar no qual eu deveria chegar. Nesse lugar, eu sabia, tudo seria diferente. Eu descansaria. Eu teria sobrevivido.
Hoje o meu sorriso é muito mais abundante. Hoje eu encaro as tempestades com agressividade. Hoje não me derrubam tão fácil, sou mais senhor de mim mesmo, mais confiante, mais maduro, domino as palavras, entendo as pessoas, converso com os animais e oro a Deus nas alturas.
Penso que tudo foi um presente de mim pra mim mesmo. Sei que pela estrada tive muita coisa que não mereci. Mas, se hoje estou onde estou, e estou como estou, é porque eu busquei, é porque eu acreditei, é porque eu conquistei. Portanto, eu mereço. A vida volta a ganhar cores.
E, se hoje me vêem com um sorriso discreto no rosto, não é mais porque ele custa a aparecer. É só porque aprendi a dar amor só quando eu ganhar amor. E amor igual ao meu é difícil de encontrar.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Deu medo




Ontem eu percebi que eu tenho medo.
A vida me fez calejado e agora eu tenho medo.
Não é medo de me arriscar. Não é medo pelas lembranças. É por mim.
Não fico pensando "quando será que vou encontrar alguém pra mim?". Eu tenho feito e faço tudo que puder pra que ela seja alguém pra mim.
Existe uma estação em que o trem pára. Não adianta se perder entre os trilhos, entre a multidão. Dentro do bombom há um licor a mais.
Não é medo de arriscar, nem de alçar vôos mais altos. Na verdade eu estou mais alto do que havia planejado. E ainda não cansei de subir.
Não é medo da vida, não é medo de me machucar. É que hoje eu ando com mais cautela, eu escolho o que vou mostrar de mim, e quanto vou mostrar da minha essência. É que hoje estou mais seletivo sobre mim.
A vida é um trem, que pisa o trilho e faz um rastro comprido. De manhã, lança tímida a primeira fumaça para poucos passageiros, talvez só para o maquinista. Ao meio tempo, a população se aglomera nas portas, querendo absorver o que há de melhor. Ao fim do dia, sobram só o trem, o maquinista, os trilhos frios, os dormentes escuros e a lua prateada.
Não é medo de soltar fumaça, de deixar as pessoas de aproximarem. É medo de me expôr demais, de me conhecerem demais, e assim me deixarem demais. E isso eu não quero mais.