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domingo, 4 de fevereiro de 2007

Hoje o tempo é tão veloz



Quando eu era criança eu não tinha noção da duração do tempo ou de como ele passava rápido ou devagar. Eu só lembro que eu vivia. Tudo que tenho hoje são só flashes de memória sobre aquele tempo, nada contínuo ou em ordem cronológica dos fatos.
Eu lembro de quando meu pai trabalhava em São Paulo e nós morávamos em Votuporanga. Ele ficava muito tempo por lá. Eu não me dava conta de quanto tempo isso durava, de quanto em quanto tempo eu o via, e também não lembro se eu perguntava prá minha mãe se eu perguntava sobre ele. Tudo que eu lembro era que passava Duck Tales na televisão e a gente dançava a música de abertura na sala. Sem eu perceber, ele saía prá demorar muito prá voltar. Nem da despedida eu tenho muitas lembranças.
Eu lembro também que esporadicamente eu encontrava danone na geladeira. O dinheiro destinado a regalias naquele tempo era muito, muito pouco (e eu não reclamo disso, na verdade eu acho que foi fundamental prá minha formação ser tão limitado quanto a essas coisas). E eu não lembro de quanto em quanto tempo eu encontrava danone na geladeira.
Lembro que eu ia prá escola, mas não sabia quando era segunda-feira ou quando já era sexta. Não sabia se já eram três horas da tarde ou se já era hora de dormir. Minha mãe que me dizia se estava começando o desenho que eu gostava ou se era hora de tomar banho. Eu sei que eu tinha um certo problema com horários. Era só chegar onze horas da noite e meu estômago brigava comigo, e eu corria vomitar. Não pergunte por que, eu também não sei.
Eu lembro das tardes na casa da minha vó. Eu, minhas primas e meu irmão. De novo, eu não sabia que dia era da semana, ou qual era o horário de acordar prá ir almoçar lá aos domingos. Eu sei que corríamos aquele quintal e nos sujávamos enquanto o tempo permitia.
Lembro, ainda, que eu não lembrava nem minha idade. Parecia que o tempo não passava nunca! 7, 8, 9 anos, era a mesma coisa sempre, não tinha virada de ano, não tinha aniversário, era tudo uma coisa só, um tempo só.
Eu não lembro nem quanto tempo eu esperei entre "eu quero um irmão" e "o Fernando nasceu".
E, depois disso, eu lembro de 2000, o ano que nunca ia ter fim. E, mais prá frente, 2005, que me dava tanta certeza que o tempo era contínuo, todos os dias eram iguais, a hora não passava, e tudo aquilo que eu tinha ia durar prá sempre, que eu nunca ia perder nada, que na verdade eu só estava ganhando e sempre conquistando mais, sempre mais feliz.
Quase um ano se passou, e agora eu conto o tempo a colheradas, tudo bem dividido. Tudo tem hora, tudo tem seu tempo. Tudo passa rápido demais.
Na vida eu apaguei algumas linhas: a que separa amor de loucura, a que separa o impossível do alcançável, a visão periférica da focal... Mas existe uma, que o tempo continua me devendo, e eu me cobro sempre, mas acho que nunca vou conseguir apagar: a fina linha que separa o pra sempre do nunca mais.