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domingo, 29 de outubro de 2006

Uma mente sem lembranças



Uma vez conversando com uma argentina, ela me perguntou se eu sentia falta da minha família, de minha cidade. Eu disse que sim, e que em português isso tem um nome: saudade, e que essa palavra só existe nessa língua. E ontem eu vi um filme, recomendado pela Vanessa, que me fez pensar em algumas coisas.
É estranho pensar em "esquecer". As pessoas têm uma necessidade muito grande em querer se livrar das suas lembranças. Não sei bem se é necessário mesmo, ou se elas querem sem pensar no que isso significa. Eu penso que se temos capacidade para lembrar dos fatos, é porque eles são necessários e devem existir.
Todos tivemos uma história de amor. E quem não teve aguarde um pouco mais que terá. Aquele amor devastador, amor avalanche, que chega sem você esperar, às vezes quando você está mais caído e menos crente na vida, e muda tudo tão rápido. E você se apaixona, e vai se envolvendo. E o mundo passa a ser um lugar ótimo prá se viver! Aí vocês saem juntos, melhor, vivem juntos. Estão em todos os lugares grudados um no outro. Têm milhões de músicas que falam por vocês, começam a criar as particularidades do mundinho, como presentes, uma cor que o outro gosta, uma música que conta a história de vocês, um lugar especial, jeito diferente de falar, segredinhos engraçados. Não se vê outro perfume igual ao dela, nem sapato parecido com o que ele sempre usa. A saudade machuca por dentro, o coração trepida toda vez que o telefone toca. Vocês dão toquinhos no celular do outro a toda hora, ou em horários que acabaram por se tornar padrão. Essa é a melhor parte: quando os dois se acostumam um com o outro e percebem que os defeitos são simples detalhes tão maravilhosos que o outro tem. Que defeitos? Não, isso não existe mais. E assim passam-se aniversários, Páscoas, Natais, flores, presentes, beijos e abraços eternos. "Promete que nunca vai me deixar". "Nossa história é prá sempre".
No entanto, como todo grande amor que vai durar prá sempre, a história acaba.
A parte mais difícil de se entender, é o motivo. Não falo aqui de "ela não gostava mais dele" mas sim "por que ela não gostava mais dele?". "Ele achou que era hora de terminar", mas "por que ele achou?". Esse que lhes escreve também teve uma história de amor que ia durar prá sempre, e confesso que o motivo que ela escolheu nunca consegui entender.
Não é agora que se pensa em esquecer. É um pouco depois, quando a angústia bate mais forte.
Sabemos que não é fácil nem possível esquecer uma história tão intensa (não sem métodos drásticos, como traumatismos cranianos). Eu penso assim: a relação envolveu duas pessoas, é um objeto, uma lembrança, isso realmente existiu, e ainda existe, não fisicamente, mas psicologicamente. Existem duas mentes alimentando esse ser, voluntaria ou involuntariamente. Não basta que uma queira esquecer, é preciso que a outra também sinta necessidade. E isso é realmente impossível, pois por mais que a cabeça desvie sua atenção do problema, ele sempre existirá, mesmo que for no inconsciente, mas sempre permanecerá lá. Laços invisíveis sempre vão ligar as duas pessoas, e vez ou outra vão relembrar dos dias tão maravilhosos que passaram juntos, e os momentos inesquecíveis. O erro está em querer esquecer, porque esse tipo de espectro não reside na cabeça. Está um pouco mais prá baixo, pulsando enquanto você respira. E só vai deixar de existir prá alguém quando parar de bater. Mesmo assim, só de um dos lados. Séculos e séculos passarão, mas o mundo nunca vai esquecer do que aconteceu naqueles tempos.

1 comentários:

cleo disse...

Eu acredito que esquece...
porque tambem acredito que há algo melhor sempre nos esperando mais a frente quando somos jovens.
E quando somos mais velhos tambem.
A vida é uma estrada e bem lá na frente, não sei onde, há uma curva de 90°, quando a fizermos não veremos mais ninguem e ninguem nos verá: é a morte.
Ou seria o início de uma outra vida?

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Sempre, e em todo lugar, palavras são proferidas, rearranjadas de tal forma que tornam único cada momento. Estas eu agrupei para que você fuja da realidade por uns instantes.